Categorias
Artistas de Antes & Sempre

A parte da nossa memória que o Google (ainda) não pode responder

Vocês já devem ter percebido que esta coluna do Lambrequim é exclusivamente dedicada a resgatar e preservar a memória artística através da pesquisa documental.  

Todavia, hoje abriremos uma exceção para falar de algo de suma importância — não apenas para nós pesquisadores, mas também para toda a humanidade: a digitalização de acervos no Brasil

Bom, vamos por partes. 

A ideia de escrever um artigo sobre o assunto surgiu quando nos deparamos com a personagem desta semana: Inocência Falce.  

Inocência Falce retratada por Alfredo Andersen
Óleo sobre tela,  37,5 x 28,8 cm. Sem data. 
Imagem extraída de Correia (2011, p. 75).

A professora e artista plástica que nasceu em Curitiba em 1899, é uma representante entre as centenas de dezenas de artistas (especialmente as mulheres) que têm em sua biografia algo muito comum. 

Não, não é o fato dela ter sido aluna do professor Andersen, mas sim, o constrangedor fato de não possuir uma biografia documentada que ultrapasse meras quatro linhas de texto com fonte Times New Roman ou Arial, tamanho 12, margens direita e inferior, 2 cm; esquerda e superior, 3 cm e espaçamento 1,5 entre linhas. 

ABNT a parte, é sabido que Inocência, iniciou seus estudos na cidade de Florença (ITA), e quando retornou ao Brasil, frequentou a Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro

Entre os anos de 1930 e 1935, de volta a Curitiba, aperfeiçoou-se na pintura no ateliê de Andersen. Consta que sua produção artística era dedicada à representação de flores e temas da natureza.

Alfredo Andersen retratado por Inocência Falce.
Publicada na Revista Paranista em setembro de 1933. Imagem extraída de Correia (2011, p. 97). 

Também parece ser consenso entre pesquisadores que grande parte de sua obra foi destruída em um incêndio (no transporte Santos-Curitiba?) e que esse seria o principal motivo para que a artista não alcançasse reconhecimento público.  

O jornal Correio do Paraná (1932-1965), do dia 21 de dezembro de 1932, destacava com as seguintes palavras a obra de Inocência: 

A artista também foi professora do Centro Paranaense de Cultura Feminina, além de outros centros artísticos.

Depois disso, há um abismo histórico-biográfico do que se tem registro digitalizado. Apenas algumas menções a seu nome aparecem, junto a tantos outros nomes de artistas que por aqui passaram e viveram.

No jornal O Dia (1923-1961), de 3 de outubro de 1954, em um texto que fala sobre o 7º Salão de Primavera, evento artístico que era realizado no Clube Concórdia, encontramos uma última informação sobre a artista:  

Neste texto de autoria de Alfredo Emílio é evidente o julgamento, tanto artístico quanto pessoal. O texto sugere que Inocência teria abandonado a carreira artística, fato que não conseguimos confirmar até o fechamento desta edição.

Sobram lacunas, questionamentos e dúvidas. O que de fato aconteceu? A qual gesto o autor se refere? O início do texto é uma metáfora? Inocência Falce decidiu se afastar do público tal qual Isolde Hötte? 

Inocência Falce faleceu em 1984. 

Podemos observar que, no caso deste texto específico, nossa pesquisa ficou obviamente reduzida apenas aos acervos digitalizados. 

Devido a pandemia que se alastra de vento em polpa, com bandeiras laranjas, vermelhas e amarelas, que revelam a vontade dos governantes que tenhamos uma eterna acromatopsia, ficamos impossibilitados de fazer uma pesquisa mais abrangente e desta forma produzir uma coluna com toda a qualidade que você merece. 

Dito isto, torna-se evidente que os meios, fontes e técnicas de pesquisa, de preservação e conservação da memória nos dias atuais, passam pela necessidade de uma priorização da digitalização dos acervos, não apenas documentais, mas também de todo o patrimônio material e imaterial. 

A pandemia evidenciou ainda mais essa necessidade. Museus e bibliotecas espalhados pelo país correm até hoje para digitalizar seus acervos e possibilitar que a população tenha acesso e realize visitas de forma remota (dê um Google!).

Essa ideia não é nova. A iniciativa já remonta ao longínquo ano de 1992, quando a Unesco criou o projeto Registo da Memória do Mundo.

Permitir este tipo de acesso é algo trabalhoso e o Brasil está um pouco defasado em relação a outros países no mundo. Além disso, existem alguns outros fatores complicantes com relação aos acervos: os direitos autorais e os ataques cibernéticos. 

No dia 11 de abril de 2021, o site da Hemeroteca Digital e outros sites da Biblioteca Nacional foram invadidos por hackers e ficaram fora do ar durante algumas semanas.

Até aqui, traçamos um breve panorama sobre o assunto e devemos ressaltar que uma necessidade não exclui a outra, ou seja, é preciso também salvaguardar nosso patrimônio artístico-cultural analógico de forma eficaz.  

Para finalizar, elaboramos o infográfico abaixo, que traz informações importantes sobre algumas das funções de um acervo digital apresentadas na dissertação “Dimensões Analísticas para uma Política de Acervos Culturais em Rede” de Calíope Victor Spíndola de Miranda. 

Assine o Lambrequim

Recebeu essa nota por e-mail ou pelo whats e gostou? Então junte-se aos mais de 2 mil assinantes da newsletter Lambrequim e receba, toda quarta-feira, uma seleção sobre música, livros, criatividade e como ser artista independente em um mundo de mudanças constantes.