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Escrita atenta: ideias para fugir da verborragia

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Cada um escreve de um jeito, e esse jeito muda assim como mudam as fases da vida. Quanto mais escrevemos, a mais testes submetemos nossos processos, e no vai e vem das possibilidades, umas grudam na areia enquanto outras vão embora com as ondas.

Apesar de ser desafiador falar sobre como encontrar o processo criativo, há um ponto que merece atenção: quanto mais fácil for realizar o processo, melhor será para quem o executa.

Em tempo de sobrecarga de informações, quem escreve precisa refletir sobre cada palavra que publica. A verborragia não leva nem escritor e nem leitor a lugar algum. De um lado, o escritor pode se orgulhar por ter escrito centenas de palavras em um dia, mas no dia seguinte, perceber que não disse nada. Por outro, o leitor pode sair frustrado de um texto longo, sem obter nada dele.

Escrita atenta, vida atenta. Não à toa é um clichê ouvir escritores sobre a atenção dispensada aos detalhes. As histórias acontecem debaixo dos nossos narizes a todo momento, vividas ou presenciadas, e cabe a nós, que escrevemos, trabalhar para que elas sejam merecedoras de registro e causem no leitor as mesmas emoções que causaram em nós.

No entanto, para viver as histórias que se descortinam em nossos dias, temos que cultivar um misto de abertura, distanciamento e presença — como um estar sem se deixar influenciar para ser capaz de filtrar o que pode ser aproveitado. 

Para poder registrar, nos tornamos tanto observadores do mundo exterior quanto testemunhas de nossas experiências — só que em um nível muito além do “esteja presente”. É poder absorver, com atenção, paciência e isenção, o que acontece ao nosso redor enquanto acontece.

Quando aprendemos a transformar o que nos acontece em descrições narrativas, a humanidade transbordará em nossas histórias.

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Escrever é um ato corriqueiro — enlaçar as melhores palavras do pensamento é o que torna o ofício mágico. Colher, filtrar, selecionar, organizar; verbos não faltam para ilustrar o processo. A escrita verdadeira, cada uma no seu tempo, liberta nosso olhar de moldes, retirando finíssimas camadas até revelar aquilo que antes não víamos.

Apesar de poder ser epifania, a escrita atenta é uma lenta transformação, assim como os processos da natureza. Quando enxergamos algo que sempre esteve diante dos nossos olhos é porque já passou a fazer parte de nós.

Impulso e jorro também podem ser (belas) escritas, mas vontade não substitui olhar. Dizer só por vontade de contar, para dividir uma boa ideia ou pelo prazer estético são pedaços (importantes) do ofício da escrita, mas nunca a experiência completa. O olhar é o alimento e o recorte da ideia, é o que caracteriza a voz de quem escreve e torna a narrativa verdadeira para quem a lê.

No entanto, olhar é difícil. Olhar exige autoexploração e autoconhecimento.

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Explorar as camadas. A história se torna e se transforma porque quem as escreve explora as camadas — as próprias, as dos personagens. O encontro de mentes acontece com o mergulho em profundidade, mas dá medo de mergulhar — mesmo que seja um pouquinho por dia, para acostumar o corpo à mudança de pressão e estado. Estar na água é estar na realidade em outro estado.

Olhar repetidas vezes, em diferentes circunstâncias. Se desconvencer de alguma verdade antiga tem o poder de reencaminhar um desejo de escrita perdido. Ver, simplesmente ver sem filtros, um objeto ou uma situação. Observador e observado sendo o que são, um para o outro, sem expectativas nem julgamentos.

Menores as barreiras, mais atenta a escrita.

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Escrever já estabelecendo todo corte de excessos. Ao invés de contar palavras, descontá-las. Dizer com o mínimo, mas sem negligenciar a imersão. Desconheço melhor forma de escrita, em que cada palavra escolhida faz a diferença no lugar em que está. 

Confusão comum entre escrever com o menor número de palavras e envolver o leitor com o mínimo viável. Não é a quantidade que define a qualidade, mas sim a maneira como cada termo é empregado.

Escrever “uma porta de tamanho normal” pode ser a menor combinação de palavras possível, mas não é suficiente para fazer o leitor imaginar a porta — ainda mais se ela tiver alguma função quando aparece na narrativa. A melhor solução, nesse caso, é fechar os olhos, imaginar a porta e descrevê-la. Dar um tempo e limpar o texto até atingir o mínimo de palavras viável para imersão.

Ter uma vista. Direcionar o olhar para algum ponto que se transforme no passar dos dias. Como um quadro em movimento, para ser olhado com fins de meditação. Se for uma janela, que fique aberta para explorar outras sensações. Os sons da rua, o calor e o vento, os cheiros. Escrita também é vida acontecendo, coceiras, notificações, pessoas querendo, sinos de vento. 

Criar uma rotina com pequenas mudanças. Escrever sempre do mesmo jeito e no mesmo lugar enjoa e deixa a imaginação preguiçosa. Em estado de sono desperto, escrevemos sempre atentos aos nossos sonhos de realidades. Mudar um pouquinho, mas mantendo alguns elementos (objetos, horários, costumes) de sempre, como âncoras, nos desperta para o invisível.

Desafiar as lembranças. A máquina de edição instalada nas nossas cabeças, nascemos com ela. Toda lembrança é o princípio de uma invenção particular, agarrada como verdadeira. Como foi que aconteceu o que me aconteceu?, sem gravações externas, só há as respostas de dentro, questionáveis, do ponto de vista objetivo. No entanto, eventos não desacontecem, nem se repetem com precisão. Nos resta desmontar as verdades brotadas das lembranças, colocando à prova cada senão.

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