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Fuga n.1 aos escritores procrastinadores

Fugir da escrita, da única tarefa que importa. Fugir, com boas explicações ou por qualquer besteira, como uma exímia procrastinadora. Fugir e, sem receio de admitir, continuar fugindo.

Fuga é também uma tentassão — com ss mesmo, subjetivando o ato de tentar. Tento tanto e de tantas maneiras que, nas lacunas entre uma tentativa e outra, perco o que funciona e o que não. Por exemplo, com qual narrador me expresso melhor, qual linguagem, em qual tempo verbal, com quantos personagens, et cetera. Amontoados de exercícios apontam caminhos, mas não formam trilhas.

Sim, estou falando sobre a longa história de escrever uma história longa; sobre a fuga em espiral para deixar de ser uma névoa de ideia. 

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As fugas têm muitas formas e cada um conhece ao menos algumas das suas. Fugas que traçamos ao longo dos anos, por razões justificáveis, mas insólitas, porque fugir nos faz desnecessariamente infelizes. Mas fugir é fácil, fácil, aconchegante e previsível. Fugir é ter controle, declarar o fracasso antes mesmo de ter tentado.

Fugir da escrita é mais fácil ainda porque (e já falei umas mil vezes isso) escrever é um compromisso pessoal que fazemos tête-à-tête de nós com nós mesmos — com direito a redundâncias propositais. Pra ajudar (e lá vem outra repetição) o ofício está longe de ser uma ciência exata, porque a palavrinha escrita tem umas duzentas ramificações possíveis, com mais ou menos cinquenta que nos interessam.

Assim, a gente pode escolher uma área da escrita, ser bom e até reconhecido nessa área e ainda assim viver insatisfeito, sem saber o porquê. É simples: porque ainda não escrevemos aquilo que mais desejamos escrever.

Um resumo: às vezes, escolher um caminho da escrita é apenas mais uma fuga. Nesses casos, volte quantas casas forem necessárias até encontrar a trilha que você desviou.

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Ironia número quatro (se bem que não estou contando): sem testar, é impossível distinguir o caminho da fuga. Quando a gente nasce com esse desejo de escrita, quer validar as possibilidades brotadas dentro da cabeça (quase escrevi cebola) com as outras quinhentas mil possibilidades que o mundo apresenta (deve ser por isso que o Brasil é o país dos coachs). A gente quer o nosso Yoda particular, o nosso Grilo Falante versão Disney ao pé da orelha, mas estamos enganados. Deveríamos fazer como o Pinocchio original, o escrito por Collodi, e esmagar o grilo falante contra a parede na primeira cochichada.

Hora de repaginar o conceito: volte no início do texto e me ajude a trocar todas as fugas por testes. Eu espero, sentada, com um teclado no colo.

Pronto? Podemos continuar? Ótimo. Criar pressupõe testar. Mesmo que esse testar também possa servir como uma espécie de fuga, fugir não invalida o aprendizado. Então, descobrir-se em um rumo diferente depois de anos talvez não seja tão mal assim. Isso vale pra tudo e acontece com todo mundo — mudança de emprego, de relacionamento, de estilo de vida, de religião e de gênero literário. Nos concentremos, por favor, no gênero literário.

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Cansaço também é fuga? Na maioria das vezes, nos cansamos por necessidade — ganhar dinheiro, pagar as contas, comer, essas coisas. Reservamos nossas melhores energias para essas atividades urgentes da sobrevivência moderna e, quando sobra um tempo, já estamos exauridos demais para escrever.

O bom e velho Byung-chul Han: nós descansamos para trabalhar e não para descansar de verdade. A pausa pequena, essa de um dia de trabalho para o outro, é interessante para quem quer que continuemos nos repetindo — ao contrário da pausa longa, porque é na pausa longa que começamos a questionar.

Faça, faça, faça, não importa o que. Escreva, divulgue, seja, apareça, tenha presença, não permita que te esqueçam. Encha a sua cabeça para encher a deles e terá sucesso. Dependendo de como usarmos o Google, ele pode ser uma máquina de produzir incertezas — mas é só quando nos despimos disso que começamos a enxergar.

A pausa longa é um silenciar das possibilidades. Ao invés de testes, começamos a traçar o caminho possível entre todos e jogamos fora (não sem certo receio) a bagagem de antes. É aqui que uma nova escrita começa.

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Como todo aprendizado, o caminho da fuga para a nova escrita é sofrido. A nova escrita é aquela que a gente não atinge, mas vê que está prestes a chegar, só não sabemos exatamente como. Nessa sintonia muito fina, nos igualamos aos músicos aprendendo a diferenciar não apenas notas, campos harmônicos e acordes, mas também a equalizar e masterizar nossas palavras. É um processo que exige, porque a cada dia nos tornamos outro e desejamos falar de outra forma já que forma alguma se fixou ainda — ao mesmo tempo, a proximidade dessa forma nos apressa, como se fosse óbvia a nova voz.

Admitir uma fuga é também sair em busca de um reencontro e/ou da conclusão de ciclos. Uma fuga só pode ser analisada quando já estamos longe do ponto de partida e percebemos que o que temos ao redor é algo diferente daquilo que estávamos procurando.

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Há de se convir, no entanto, que seja fuga ou teste, há motivos de sobra para não apostarmos na opção que gostaríamos — opções que podem ser adicionadas ao imenso pacote de “receio de falhar”. Podemos falhar por inteiro ou pela metade; tentar inúmeras vezes num incômodo quase chegar lá; ficar tão perto de alcançar a coisa e dar um passo em falso na beirada, rumo à queda para não mais levantar.

Tentar e não conseguir é mais fácil de aceitar do que tentar e não conseguir por muitíssimo pouco. Se descobrir bom o bastante, mas ainda não o suficiente, sem saber onde nem como melhorar, pode significar o fim de uma jornada.

Mas não aqui, não nesta casa. Aqui a gente desavessa as incertezas, remenda os medos e segue, escrevendo.

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