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Artistas de Antes & Sempre

Georgina Mongruel, uma multiartista mulher na virada do século XX (parte 1)

A personagem da nossa coluna de hoje foi professora, escritora, pintora e musicista

Pesquisas anteriores dizem que, devido a seu temperamento travesso, era punida pelo pai, que a obrigava a ficar trancada no quarto copiando obras de autores clássicos, castigo que acabou criando nela o gosto pela poesia.

Uma mulher com uma trajetória artística relevante, figura pública reconhecida e que, em determinado momento, se posicionou de forma contrária à sua contemporânea Mariana Coelho

Estamos falando de Georgine Catherine Eugénie Léonard Mongruel, patrona da cadeira n° 5 da Academia Feminina de Letras do Paraná

Conforme as publicações anteriores desta coluna, nosso objetivo é resgatar, preservar e documentar a vida e obra de personalidades e artistas que fazem parte da história das artes. 

Boa parte do que sabemos sobre a vida e obra de Georgina Mongruel, como era mais conhecida, deve-se à publicação Escritoras brasileiras do século XIX: antologia, publicada em 2004, pela Editora Mulheres em Santa Cruz do Sul-SC. 

Entretanto, existem outras informações que estão espalhadas em uma dúzia de acervos. É esse papel de organizar e centralizar em uma espécie de biografia que faremos por aqui — em especial quando se trata de sua atuação profissional e suas publicações.

Os anos de formação de Georgina Mongurel

Georgina Mongruel nasceu em 1 de abril de 1861, em Charleroi, Bélgica. Com apenas 3 anos de idade, ficou órfã de sua mãe, Emma Bernard Leonard (? – 1864). Fato este que, possivelmente, impulsionou a rigidez com que fora criada por seu pai, o médico e engenheiro Léon Leonard (? – 1880). 

Certa vez, Georgina teria mostrado ao pai um poema de sua autoria, sendo repreendida e proibida de escrever poesia. Ela então teria passado a escrever escondida. Seu avô, Desiré Werwort (? – ?) que foi advogado e professor, teria assumido sua tutela e passou a lhe ensinar, além de música, inglês e alemão. 

É creditado a ele o auxílio na publicação das primeiras obras de Georgina, que utilizava o pseudônimo Rose Fernande. Anos mais tarde seu pai acabou por descobrir suas incursões literárias, aceitando de bom grado. 

E aqui começa o quebra-cabeça, pois, segundo as informações da publicação citada acima, Georgina, foi educada em Paris, França. Ocorre um vácuo temporal do que se sabe sobre sua formação até ela completar 21 anos, idade com a qual ela recebe o diploma de formação em música pela Escola de Música e Belas-Artes de Paris. 

Retornando à Bélgica, continuou seus estudos na Escola Normal Superior de Mons (alguns documentos chamam de Universidade de Mons), desta vez estudando Matemática e Humanidades. Formou-se professora em 1885, ano também do seu primeiro casamento, com Hyacinthe Dieudonné (? – 1890). 

Ainda neste período, Georgina teria começado a trabalhar como redatora dos jornais Moniteur Universel, de Bruxelas, e do Mercure de France, de Paris. No ano seguinte, nascia seu primeiro filho, Georges (?). Vamos abrir aqui um breve parênteses para falar sobre o primogênito de Georgina. 

Até onde conseguimos levantar, George passa a se chamar Jorge após sua chegada no Brasil — ao menos é o que relata o jornal Correio de Notícias do dia 2 de junho de 1985, em um texto de Ney Alves de Souza, intitulado Propaganda

Nele, lê-se: “Jorge Deodato Lemoine nasceu em Bruxelas, a 22 de março de 1886”. Em 1912, ele teria fundado a primeira agência de propaganda do Paraná “A Propagandista”. E em 1985, já se anunciava um prêmio que recebeu seu nome. 

É um pouco confuso devido às diferenças de sobrenome, mas tentaremos elucidar isso mais adiante no nosso quebra-cabeça. Voltemos à Georgina.

A vinda de Georgina ao Brasil e seu trabalho em Curitiba

Em 1890, ela se casa uma segunda vez, agora com o engenheiro e comerciante parisiense Maurice Émile Mongruel. No ano seguinte, a família Mongruel muda-se para o Brasil, residindo em São Paulo (local de nascimento de seu segundo filho, Roberto Emílio) e no Rio de Janeiro, até que em 1894, fixam residência em Curitiba

Em Curitiba, nas palavras de Andrade Muricy, em seu livro de memórias O símbolo à sombra das araucárias (1976), afirma que: 

“Georgine Mongruel, sem jamais se querer impor, participava de tudo, influiu em todo o meio cultural, frequentando assiduamente as associações e as tertúlias literárias, onde lia, com a sua voz grave, acentuada, pausada, os seus poemas em prosa e os seus versos franceses; caminhava também pelas veredas complexas e heteróclitas do Esoterismo, e a sua espiritualidade levá-la-ia às hostes do neopitagorismo”.  

De fato, embora Georgina tenha atuado no Rio e em São Paulo, é em Curitiba que, aparentemente, ela encontra um vasto campo a ser explorado profissionalmente. É neste período histórico que a capital paranaense está em plena efervescência cultural

A Escola de Belas Artes e Indústrias de Mariano de Lima, localizada à época na Praça Tiradentes, antiga Casa Feres (Merhy Feres foi um imigrante sírio-libanês que chegou no Brasil em 1895 e construiu em 1929 o Palácio Avenida, na Avenida Luiz Xavier), ia de vento em polpa, com dezenas de alunos matriculados (publicaremos no futuro uma pesquisa específica sobre a Escola de Mariano de Lima e sua importância para a história das artes em Curitiba). 

Ao se estabelecer na cidade, Georgina passou a atuar, em um primeiro momento, como professora de música (piano, violino e canto) e também lecionando francês, alemão, ciências naturais, matemática e desenho (aquarela). 

Ela é logo contratada pela escola de Mariano, e passa também a atuar nas mais diversas escolas da capital, como, por exemplo, a Sociedade “La Galousi”, a Escola Americana, o Ginásio Curitibano, os Colégio Júlio Theodorico e Duílio Calderari e na Associação dos Empregados do Comércio.

No mesmo período, passa a contribuir com os mais diversos jornais e revistas que circulavam no país à época: Fanal, A Notícia, Diário da Tarde, Almanaque do Paraná, O Olho da Rua, O Cenáculo, Victrix, Escrínio e Fon-Fon. Nestes periódicos, publicou uma série de poesias, crônicas e críticas de arte. 

Existem relatos também afirmando que Georgina colaborou com revistas literárias publicadas na França (Mercure de France), na Argentina, no Uruguai e em seu país natal. Mas como dito acima, a atividade principal desenvolvida por Georgina na capital é a música.

Georgina e sua relação com a cena musical 

É sabido que Georgina morou em diferentes localidades na capital. Sua primeira residência em Curitiba foi, possivelmente, na rua Cerrito (sem número), que virou Conselheiro Barradas e atualmente é a Carlos Cavalcanti. Outro endereço que temos registro, é o da rua Mato Grosso e depois a rua Santos Dumont, n.9, local este onde Georgina realizou por vezes alguns saraus de música e literatura

A primeira citação, localizada por nós, ao nome de Georgina na capital é a do jornal A República e data de 24 de novembro de 1895. Nele, foi noticiado a realização de uma missa realizada naquela manhã na Catedral “em louvor a Santa Cecília, padroeira dos músicos”, a missa foi organizada pelo Grêmio Musical Carlos Gomes, que à noite promoveu “uma belíssima festa artística”. 

Nota-se que, embora recém-chegada à cidade, Georgina, logo começou a participar das atividades artísticas e culturais promovidas pelos mais distintos grupos e associações. Tanto que, menos de um ano depois, participa como jurada de uma comissão de música, organizada por célebres músicos como, Bento Menezes, Adolpho Corradi e Alberto Monteiro, que tinha como objetivo homenagear o compositor Carlos Gomes. 

Destacam-se também uma publicação de 1899, por ocasião de uma “programação dos exercícios escolares dos alunos de música” — nela consta uma composição de Georgina, intitulada Hymne aux Beaux Arts

Em 1901, uma publicação anunciava uma exposição na “Impressora Paranaense” de quadros em aquarela da artista. Localizamos apenas este desenho (abaixo) atribuído a Georgina e que foi publicado no jornal Diário do Paraná: Orgao dos Diários Associados (PR), no dia 10 de maio de 1975.   

Outras publicações informam que Georgina era compositora exímia, e que teria musicado versos de Ismael Martins, Guerra Junqueiro e Emiliano Perneta. São as obras: Canção, (ilegível) doído e Um violão que chora, respectivamente. Além destas, uma parceria com Dario Vellozo intitulada Rosa Alchimica.

Uma mulher que se destacou pela sua formação diversificada  

Mas a que se deve tal facilidade na aproximação aos mais diversos artistas, políticos e personalidades, em uma “seleta” sociedade curitibana por parte de Georgina?  

Até onde pudemos levantar, foi devido a sua formação ser diversificada. Em um exercício de imaginação, podemos confirmar esta hipótese. Vejamos: 

Nas mais diversas publicações nos jornais da época, o nome de seu marido quase nunca é encontrado, ou seja, se você pensou que ele poderia exercer alguma influência na sociedade, como ocorre com outras artistas contemporâneas de Georgina, este fato não pôde ser comprovado. 

A importância dos imigrantes na capital paranaense é apontada por Rocha Pombo, em seu livro O Paraná no Centenário (1500-1900), destacando que, “…os estrangeiros que têm entrado naquela terra devemos o concurso mais esforçado e mais eficaz, que um país novo pode esperar da imigração”. 

Mais adiante no texto “…muito devemos [sic] também a imigrantes de outras nacionalidades, menos notáveis pelo número, mas tão operosos e dignos de nossa fraternidade como aqueles”. 

O pesquisador Marco Pereira, em seu artigo A cidade de Curitiba no discurso de viajantes e cronistas do século XIX e início do século XX, aponta para o fato de que “o discurso que as elites curitibanas elaboravam sobre a cidade, através de seus cronistas, escritores e historiadores, era marcado por forte ênfase num enfoque “progressista”, típico de uma cidade em processo de urbanização. 

O autor ainda informa que “todos os componentes desta formação discursiva apontavam [sic], inequivocamente, para a noção de progresso, em seus diversos aspectos: arquitetônico, urbanístico, comércio-industrial, educacional, político, etc. 

Portanto, de acordo com o que foi citado acima, nossa hipótese é plausível. É este contexto de “civilizatório” que Georgina encontra em Curitiba e que possivelmente a faz permanecer na cidade

Na próxima edição desta coluna, continuaremos a contar a história de Georgina Mongruel, tratando mais especificamente sobre seu posicionamento frente às ideias de sua contemporânea Mariana Coelho

Até lá, fique com este poema de Georgina, datado de 1907 e que foi publicado no periódico O Olho da Rua que circulou no Paraná entre 1907 e 1911.