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Identidade não-binária

por Evelyn Cieszynski

“Ninguém nasce mulher, torna-se mulher.” Foi com esse dito da filósofa Simone de Beauvoir que verbalizei em voz alta o primeiro questionamento da minha identidade de gênero.

Eu passeava com um amigo pela Linha Turismo de Curitiba quando lhe disse: se ninguém nasce mulher, então eu não sou mulher, porque nunca me tornei uma.

Naquele tempo, eu ainda não tinha conhecimento sobre o que era identidade de gênero, tampouco sabia de onde tinha vindo aquele dito e o que realmente significava. Meu entendimento do tema era muito simplista e conservador, como ainda é para a maioria das pessoas.

Alguns anos depois desse passeio, um outro amigo me perguntou sobre minha identidade, já que eu não representava ou performava um padrão cisnormativo. Esse amigo já sabia que eu não me sentia pertencente ao gênero mulher, ou completamente dentro do feminino binário. Mas a pergunta direta dele abriu espaço para que a gente falasse abertamente sobre o assunto, e aquilo começou a me cutucar desde então.

Eu nunca cheguei a ler na íntegra O segundo sexo, de Beauvoir, mas li outras filósofas que se baseavam na obra da francesa. Uma delas foi Judith Butler.

Como todo bom livro de filosofia, Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidademe trouxe muito mais perguntas às minhas perguntas do que respostas.

Para entender minha identidade, precisei começar do começo. Para isso, a primeira pergunta que fiz ao nosso sistema sociocultural foi: o que é gênero? Não foi fácil responder, mas cheguei a:

Gênero: conjunto de comportamentos, pensamentos, regras e proibições imposto a uma pessoa dentro de um sistema sociocultural, definido a partir da fisionomia de uma genitália.

Pode ler de novo e me diga se isso faz sentido para você. 

Butler escreve: “A marca do gênero parece ‘qualificar’ os corpos como corpos humanos; o bebê se humaniza no momento em que a pergunta ‘menino ou menina?’ é respondida.” Ou seja, somosvistos apenas como alguém quando temos o rótulo de um gênero, que ainda nos é designado por outra pessoa.

A partir daí, as próximas perguntas mais óbvias a serem respondidas seriam: o que é o feminino? o que é o masculino?

Pelas minhas pesquisas e reflexões, não consegui alcançar uma definição de feminino e masculino, mas de mulher e homem. A grosso modo (e leia-se senso comum):

Mulher: sujeito passivo de submissão, entendido com uma capacidade intelectual reduzida em comparação ao gênero oposto, culturalmente designado ao cuidado doméstico e familiar; alguns símbolos anatômicos do gênero: ausência de pelos no rosto e corpo, presença de seios, voz aguda.

Homem: sujeito agressivo e opressor que toma para si um poder social, que se põe e impõe acima de outro gênero que não seja o seu; alguns símbolos anatômicos do gênero: grande quantidade de pelos espalhados pelo corpo, ausência de seios, voz grave.

Essas definições fazem sentido para você, atualmente? Para mim, não fazem. 

Mas então, o que define se identificar como homem ou como mulher? Difícil encontrar uma resposta quando a sua identidade, ou como você se identifica, não faz parte do binário homem-mulher. Mas talvez você se identifique como homem ou mulher, e se esse for o caso, pode me ajudar a responder essa pergunta.

Pessoas que não se identificam com o binário de gênero são chamadas de pessoas não-binárias ou pessoas de gênero não-binário. E é exatamente neste lugar que me encontro.

Mas meus questionamentos não acabam por aqui. Pessoas que estão fora de um padrão social tendem a sempre estarem refletindo, questionando e buscando imagens representativas para si.

Eu não abri os olhos num belo dia e tive um insight sobre a minha identidade. Demorou um ano para construir os significados que estou trazendo neste texto. Levei um mês para ler Judith Butler (por ser uma leitura bastante complexa), e mais outros tantos meses para as palavras se assentarem na minha mente e então dar sentido ao que eu buscava. E ainda tenho um tanto de livros para serem lidos sobre o tema.

Hoje, as questões de gênero e sexualidade têm muito mais visibilidade do que quando eu era criança e adolescente, por exemplo. Me vi representado pela primeira vez aos 24 anos (hoje 27), no seriado O mundo sombrio de Sabrina. Quem assistiu a série pôde acompanhar a descoberta e transição de Theo, um personagem transgênero. Me lembro bem de quando cortei o cabelo curto e comentei com a cabeleireira: estou parecendo o Theo, da Sabrina. 

Nunca mais deixei o cabelo crescer. 

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