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Leitura & Alento

Ler: uma obsessão que nos salva e nos golpeia

por Patricia Dias

Depois de um período de intensa procrastinação, mais o luto pelo falecimento do meu Ringo cão amado, essa coluna está de volta à programação normal.

Com muita sensibilidade, a Mylle batizou esse espaço de Leitura & Alento, uma relação poderosa que me inspira a escrever e também a atravessar as intempéries. 

A leitura preenche vazios de um jeito bom. São minutos preciosos tanto para fugirmos da realidade quanto para nos encontrarmos. De minha parte, vou além e cultivo obsessões literárias.

No dicionário, obsessão é: preocupação exagerada com alguma coisa (no caso, livros, em geral; um autor-obra-ou-personagem, em especial), apego excessivo a uma mesma ideia; ideia fixa; compulsão; necessidade intensa de fazer algo ilógico ou insensato (gerando gastos excessivos $).  

Em geral, nascem ao acaso, (aquela coisa de Match Literário que comentei em outra edição) e são absolutamente pessoais e intransferíveis. São alimentadas com entusiasmo, e logo ganham status de urgência.

A vontade de todo leitor obsessivo é pausar a vida para se dedicar exclusivamente ao objeto da obsessão, que eventualmente sofre alterações. Afinal, seria um desperdício cultivar apenas uma obsessão frente a grandeza do universo literário.

Essas obsessões ou cismas envolvem um processo complexo que pode durar meses e até mesmo a vida toda. Começa com a pesquisa sobre o autor e suas obras (quais os melhores títulos, as coletâneas mais completas, as melhores traduções, os textos de apoio), depois parte-se para as buscas nas livrarias, sites e os garimpos em sebos.

Leitores obcecados irão concordar que não existe alegria maior do que encontrar o livro desejado, em perfeito estado (por uma pechincha!) e, com sorte, trazendo uma dedicatória curiosa. Podem dizer que é loucura, mas eu acredito que o Universo conspira a favor dos obcecados, enviando sinais, lembretes, — inclusive os próprios livros desejados — que aparecem como que por encanto.

Geralmente a fase de buscas nunca tem fim e acaba roubando parte do tempo dedicado à leitura, mas isso faz parte do quadro obsessivo. Ao menos como mediadora de clubes e oficinas literárias, tenho a desculpa de aumentar o repertório.

Além de aguçar o olhar curador, tanta pesquisa resulta em achados especiais: obras que desconhecíamos totalmente, versões ilustradas, edições raras e esgotadas, diferentes adaptações, uma variedade de biografias. Pilhas de livros absolutamente desnecessários (lembram da inutilidade da Arte?) mas que colocam um sorriso em nosso rosto a cada olhadela na estante. E cada vez que viramos as páginas, sentimos novamente a emoção daquele primeiro encontro.

Todo leitor obcecado guarda pequenos tesouros em suas estantes. Muitas vezes, são criações de autores-leitores-obcecados homenageando o legado de seus autores do coração.

Eu me alimento desses encontros especiais — com autores e suas obras, e com os desdobramentos de suas obras. Vou me nutrindo da beleza tanto do texto quanto da materialidade.

Peço desculpas se pareço incentivar o consumismo, mas entendo que os livros são sempre um bom refúgio, especialmente nos momentos mais dolorosos. Preenchem o vazio dos dias e os dias vazios.

Não posso deixar de citar Antonio Candido e o ensaio O Direito à Literatura, pois precisamos de cultura e beleza, tanto quanto precisamos de direitos básicos como alimentação e moradia. Como seres de linguagem temos a necessidade de ouvir histórias e de criar nossas próprias narrativas. Precisamos da palavra, da ficção e do sonho para a formação da subjetividade e a manutenção da Saúde Mental. Ler não resolve todos os problemas, mas ajuda um bocado.

Para citar uma obsessão atual, em Kafka a beleza não está em primeiro plano; é preciso olhar demoradamente, encarar o desconforto, despir-se das certezas e do senso comum. Ao aceitar o não-saber, nos abrimos a novos sentidos, e aí sim, podemos perceber algum encanto, ainda que doloroso e claustrofóbico.

Como fã das leituras desconfortáveis, não poderia deixar de citar o próprio Franz Kafka. Afinal, “se o livro que estamos lendo não nos acordar com uma pancada na cabeça, para que o estamos lendo? (…) Precisamos de livros que nos afetem como um desastre, que nos angustiem profundamente (…) Um livro tem de ser o machado para o mar congelado dentro de nós”.

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