Categorias
Cismas

Memórias em nuvens digitais (ou como estamos cada vez menos focados)

Qual é a lembrança mais recente que você tem? E a mais remota? O que será que aconteceu no meio do caminho?

Tenho questionado muito a memória — a memória em si, o que sabemos sobre ela. Em tempos de nuvens, dados e inteligência artificial, é mais complicado dizer o que, de fato, é uma memória pura. Decorar tornou-se supérfluo; mas armazenar é ilimitado. Agora que a informação da humanidade, para usar o clichê, está ao alcance de um toque, a capacidade de discernir e apreender vai rareando. Quem mastiga não deglute, e quem recebe não sabe o que está engolindo.

Mas, sejamos francos: quem se importa com conhecimento? Quero saber mesmo é das séries, das músicas, dos vídeos e podcasts. Eis a utilidade da internet.

Ontem passei o dia tentando me lembrar do nome da personagem principal de uma das minhas séries favoritas, The Good Place. Fui capaz de recordar os nomes de todos os personagens, inclusive dos mais secundários (tipo a demônia Vick), menos da personagem principal. Nada me impedia de fazer uma busca rápida — nada além da minha consciência e do medo de ter que começar a jogar Candy Crush para melhorar a memória.

O ato de consultar tornou-se corriqueiro, quase automático. Ninguém mais precisa saber; basta pesquisar para descobrir. Com a desculpa de que é impossível se lembrar de tudo, lembra-se cada vez menos, não fazendo distinção de importância sobre o que é esquecido.

Memória em tempos de tecnologia ainda é um assunto nebuloso até entre os pesquisadores. Cientistas como Jason R. Finley no livro Memory and Technology: How We Use Information in the Brain and the World, alegam que, devido ao uso constante da memória externa para armazenar informações menos importantes, agora temos mais espaço na nossa memória interna para guardar o que importa. Finley afirma ainda que o espaço de armazenamento do cérebro não é limitado como um disco rígido —pelo contrário, nosso espaço interno é praticamente ilimitado.

Se os fatos importantes são armazenados no infinito do nosso disco rígido de nascença, talvez a memória precise de um tempero a mais para ser gravada: o foco.

Mesmo correndo o risco de ser saudosista, a pirataria na era da internet discada tinha lá suas vantagens. Levava-se semanas, às vezes meses, para baixar uma série no mIRC; dias para conseguir aquele CD no eMule. Ligar o PC na calada da noite, sempre depois da meia-noite, quando apenas um pulso de telefone era cobrado e deixá-lo lá, baixando 20mb até às seis horas da manhã. Com o vídeo ou a música em mãos, era hora de queimar um CD para guardar a relíquia pelo resto da eternidade. A partir de então, via-se ou ouvia-se aquele mesmo material por meses a fio; decorava-se falas, letras, cenas, tudo.

Memórias em nuvens digitais (ou como estamos cada vez menos focados)
Um pedacinho da minha “coleção” de CDs queimados na década de 2000

Não era só pela falta de opções no início dos anos 2000 que era mais fácil decorar o que se consumia; era porque o valor intrínseco da conquista era maior; logo a qualidade do foco também melhorava.

Como funciona a memória

Nosso cérebro tem a capacidade de armazenar cerca de 2.5 petabytes (milhões de gigabytes) — o equivalente a 300 anos de exibições ininterruptas de séries (ao menos essa é a conta pré-5G). Todo esse “espaço” nos torna capazes de lidar com toda a informação que recebemos diariamente, não é? Se a questão estivesse apenas relacionada com a capacidade de armazenamento, a resposta seria positiva — mas, como você já deve imaginar, o cérebro é mais complicado (e misterioso) que isso.

A memorização acontece em três etapas: aquisição (quando adquirimos uma nova informação); estocagem (quando retemos essa informação) e recuperação (quando nos lembramos dessa informação). No entanto, ao contrário do que se acreditava até bem pouco tempo, não existe uma área específica para o armazenamento das memórias: cada uma de nossas lembranças faz um caminho distinto em nosso cérebro, acionando áreas diferentes dele. 

Por exemplo, quando aprendemos a andar de bicicleta, envolvemos várias regiões do nosso cérebro: a memória motora, a memória visual, a memória auditiva, a memória sensorial etc. Agora, lembre-se de quando você aprendeu a andar de bicicleta. É provável que todo o seu corpo estivesse focado nessa nova experiência, certo? A primeira vez que você conseguiu se equilibrar em duas rodas e sentir o vento batendo no seu rosto foi gloriosa! As pessoas que te auxiliaram nesse aprendizado festejaram com você, te parabenizaram.

Agora, vamos adicionar um novo elemento na cena: um celular no seu bolso, que vibra repetidas vezes exatamente quando você percebe que está se equilibrando sozinho pela primeira vez. Quais seriam as consequências dessa mudança repentina de foco?

Distraídos… não, nós não venceremos

Mesmo antes dos smartphones, sempre tive dificuldade de me manter focada. É comum eu me sentar para realizar qualquer atividade e novas ideias ou lembranças começarem a surgir uma atrás da outra. Além disso, o acúmulo de atividades, as inúmeras possibilidades disponíveis e o vício em recompensas imediatas só aumentam mais o desafio de seguir em frente com qualquer projeto.

Por isso, depois de refletir sobre como lidar com as informações que recebemos, o próximo desafio é como melhorar a nossa memória

Além das três etapas de memorização, as memórias podem ser armazenadas de duas formas: como memórias de curto prazo e memórias de longo prazo. As de curto prazo são as memórias que guardamos e logo esquecemos — como uma lista de compras, por exemplo. Já as de longo prazo são as memórias mais duradouras, como quando aprendemos a andar de bicicleta.

Com toda a informação que lidamos, é normal que muitas das nossas memórias sejam de curto prazo. Você provavelmente já passou pela experiência de ver algo na internet que achou mega interessante e cinco minutos depois se esquecer do que era. Acontece o tempo todo, certo? É normal.

Porém, e quando nos esquecemos de informações que são realmente relevantes para nós? Uma leitura, algo que passamos horas estudando e acreditávamos ter se tornado um conhecimento, um bom filme, ou uma memória cara que simplesmente parece ter sido apagada? Se nossa capacidade de armazenamento é enorme, por que estamos nos esquecendo?

A resposta está mais uma vez na escrita e no tempo.

O “urgente” de 2003 com certeza não é o “urgente” de hoje

Se você quer lembrar: repita e escreva (à mão)

(ou a definição de estudo)

Assim como a criatividade, ninguém é mais ou menos capaz de ter uma boa memória. Memorizar é mais um músculo que podemos aprimorar na nossa massa cinzenta. No entanto, para isso, antes precisamos compreender como transformar as informações que recebemos em conhecimentos de longo prazo.

Entre cada uma das etapas de memorização — aquisição, estocagem e recuperação — há um fator crucial que define os caminhos que determinada informação tomará no nosso cérebro: o tempo. Memorizar não é imediato, como salvar um arquivo no computador (ao menos não por enquanto). Além disso, ninguém tem a resposta exata de como o processo físico e químico de memorização funciona, por isso as técnicas usadas por Sherlock Holmes continuam sendo as melhores.

Uma boa memória está diretamente relacionada à uma boa saúde. Assim, os conselhos dados por nossas avós continuam válidos: nada melhor do que boas noites de sono, alimentação equilibrada e exercícios físicos para deixar as lembranças tinindo. 

E, enfim, o mais importante: estar focado no que queremos memorizar. De nada adianta ler, estudar e produzir um monte se, no dia seguinte, nos esquecemos de tudo. Quando não nos envolvemos, não nos entregamos ao que estamos fazendo em determinado momento, a atividade perde o valor e não é armazenada na nossa memória.

E é claro que estamos vivendo no automático em muitos, muitos momentos.

Estamos deixando de viver experiências marcantes pelo simples fato de estarmos distraídos demais com nossos quadrados luminosos, coloridos e barulhentos. Em certos momentos, eles são muito mais importantes do que a tal vida real.

Lembrar exige tempo. Exige repetição. Exige acordar, dormir, distrair-se e começar de novo. Memorizar é o oposto de uma busca no Google que nos dá respostas imediatas. 

(Aliás, você se lembra sobre o que foi sua última busca que fez no Google?)

Andar de bicicleta, levar dias para conseguir baixar um CD e ouvi-lo inúmeras vezes depois, estudar algo para nunca mais esquecer: atos que demandaram tempo, empenho e repetição. É por isso que nos lembramos tão bem deles: porque não vieram prontos para nós.

Por fim, mas não menos importante: escrever à mão. Desenhar as letras no papel é comprovadamente mais eficaz para a memorização do que digitar. 

Um processo de usar, estudar e anotar de tudo um pouco

A ciência por trás de escrever à mão

A escrita à mão é mais efetiva do que a digitação por causa do Sistema de Ativação Reticular (SAR ou RAS, em inglês), uma espécie de “central de comando” no nosso cérebro. RAS é uma rede produtiva de células que conectam nosso córtex ao nosso tronco encefálico.

Por ser responsável pela atenção, pelo alerta e pela motivação, esse sistema trabalha melhor quando é estimulado por sensações e movimentos físicos variados — ou seja, digitar as palavras mexe menos com o nosso cérebro do que escrevê-las no papel.

Quando escrevemos à mão — sejam palavras, caracteres de um novo idioma ou de outras linguagens, como a linguagem musical — nosso reconhecimento da orientação correta dos caracteres é mais forte e mais duradouro. Isso sugere que os movimentos específicos memorizados enquanto estamos aprendendo a escrevê-los auxilia na identificação visual de suas formas.

Menin revisando Harmonia

Já não é de hoje que falo dos benefícios de escrever à mão. No entanto, algo que descobri recentemente é que não é a quantidade e nem o assunto que importa, mas sim o ato. É o ato, o movimento de desenhar símbolos no papel que estimula nosso cérebro. Por isso, para finalizar, deixo quatro sugestões de como praticar, de forma simples, a escrita no seu dia a dia e exercitar a sua memória.

  1. Tenha sempre um bloco de notas e uma caneta (ou várias; ou um lápis) por perto. Sério, carregue-os aonde quer que você vá;
  2. Escolha materiais de papelaria que te deixem feliz. É sério! Escolha o papel que mais te agrada ao toque, canetas de cores diferentes e com as quais você curta escrever, um lápis ou grafite com a maciez que te ajudem a deslizar pelo papel. Esses estímulos são importantes para te ajudar a lembrar do que você está escrevendo;
  3. Mantenha um diário — mas não um diário no sentido clássico. A ideia é que você escreva uma ou duas frases por dia, sobre o assunto que preferir, só para exercitar o movimento mecânico da escrita no papel;
  4. Crie o hábito de escrever notas à mão — pode ser no caderno que está carregando com você ou no primeiro papel que aparecer na sua frente. Anote todas as ideias e pensamentos dos quais você queira se lembrar, mesmo que sejam palavras soltas ou frases pela metade.
  5. Estude fazendo anotações à mão. Sim, anotar digitando ou tirando fotos é mais rápido e mais prático, mas se você quer mesmo memorizar algo, o mais indicado é estudar anotando as principais ideias à mão.

P.S.: Ainda não me lembrei do nome da personagem principal da série The Good Place. Pode parecer uma besteira, mas, pensando agora, acho que deveria ter anotado

Assine o Lambrequim

Recebeu essa nota por e-mail ou pelo whats e gostou? Então junte-se aos quase 2 mil assinantes da newsletter Lambrequim e receba, toda quarta-feira, uma seleção sobre música, livros, criatividade e como ser artista independente em um mundo de mudanças constantes.