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O que é Música: refletindo sobre as respostas do senso comum

Os meus alunos já estão acostumados com a pergunta: O que é Música? 

Todo início de semestre começo as aulas com as turmas iniciantes discutindo sobre o que é a Música. Peço que cada um defina ou fale sobre o que acha, pensa ou leu em algum lugar. 

As respostas são as mais variadas possíveis, desde definições dicionarescas até as mais mirabolantes e quase inimagináveis. A maioria delas, para ser sincero, são bem pessoais. Depois de longos debates — muito interessantes, por sinal — acabamos chegando à conclusão que explicar ou tentar definir a música é algo complexo

Ao fim de toda a conversa, digo que tudo que foi dito é válido e pode servir para o nosso estudo e que quanto mais relações pudermos fazer melhor. Eu inclusive listei algumas das definições que já encontrei e coloquei no material didático que utilizo, mas elas servem apenas para atiçar a discussão. 

As diversas definições apresentadas em diferentes plataformas e formatos, acabam descrevendo a música de forma muito simplória, quando não, defasada. 

Bom, já que tentar definir música é bem complexo, que tal fazermos o contrário? Tentar definir o que a música não precisa ser, por exemplo, pode ser um caminho interessante. 

Para começar, eu quero dizer a você que a música não precisa ser agradável aos ouvidos. Essa é uma das coisas que mais me preocupam nas definições encontradas e que de certa forma fazem parte do senso comum.

Lembre-se: a música é uma ciência, portanto, quando dizemos que “A música é todo som agradável aos ouvidos”, estamos limitando não apenas ao nosso gosto pessoal (gêneros musicais preferidos ou sons que te aparecem agradáveis), mas também eliminando a chance de experimentarmos uma infinidade de possibilidades musicais

Um exemplo disso pode ser visto na reação das pessoas ao ouvirem as obras musicais dos compositores contemporâneos, ou ainda, ao ouvirem as músicas eletroacústicas. Uma grande parcela, dirá “Isso não é música”. 

É interessante pensar nisso quando colocamos a mesma obra musical atrelada a alguma imagem, por exemplo, em uma cena de um filme ou série. A percepção, ou melhor, a forma que recepcionamos a obra, é obviamente diferente pois nosso cérebro está mais atento ao que está acontecendo (ou vai acontecer) na cena do que na música em si. 

Portanto, podemos dizer que a música não precisa transmitir efeitos sonoros, harmoniosos e esteticamente válidos (aceitos). Aqui, nós poderíamos entrar em uma discussão sobre o belo e o texto ficaria realmente longo e talvez fugisse um pouco da proposta inicial — mas relaxe, eu estou preparando a segunda temporada de Lições de Sofia, que vai ser lançada no ano que vem e teremos um episódio ou mais para tratar deste assunto. 

Outra definição que sempre me incomoda um pouco é a de que “A música é uma forma de expressar os sentimentos”. Bom, essa definição me preocupa porque, novamente, acaba caindo no senso comum de que um artista cria determinada obra porque está sentindo aquilo que está sendo executado. Mas nem sempre é isso que ocorre.

Normalmente essa definição casa com as músicas letradas. A pessoa diz “Nossa, essa música está dizendo exatamente o que estou sentindo”. O que ocorre aqui é que, na realidade, esquecemos que por trás da maioria dessas músicas, existe uma produção musical preocupada com o retorno comercial daquele produto. 

E isso é válido para qualquer gênero musical. Não fique você achando que é somente a indústria da música sertaneja que possui grupos de pessoas que se juntam para criar as obras que em breve serão tocadas por hora nas plataformas de streaming

A maioria dos artistas (os mais conhecidos na mídia) na atualidade possuem um engenho de pessoas que fazem todo o tipo de levantamento sobre as tendências do mercado. 

Também já encontrei que a Música é “A sublime expressão do amor universal”. O que será que estavam querendo dizer com isso? Difícil, né? Amor universal, sei lá, vamos tentar outra, quem sabe, “o pressentimento de coisas celestiais”. 

A frase é atribuída à Beethoven. Possivelmente ele estava falando sobre algo relacionado ao divino (deus, ou deuses), mas se lermos essa frase sob um outro prisma veremos que as “coisas celestiais” estão mais próximas do caos do que ao que normalmente relacionamos com o divino. Mais uma vez, não quer dizer que o que ocorre longe, lá no infinito, fora do alcance dos nossos olhos e ouvidos, não seja algo belo. 

Este é apenas um pequeno esboço sobre o assunto, já que pretendo, um dia, continuar este texto. Enquanto isso não ocorre, mande sua cartinha eletrônica pra gente (oi@lambrequim.com.br) falando o que é Música pra você ou qual é a sua opinião sobre o assunto.

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