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Que seja difícil escrever

Escrever uma história até o fim, tenha o tamanho que tenha, é uma tarefa difícil. E, sem papas na língua, às vezes tenho a impressão de que quanto mais estudo e me aprofundo no universo da escrita criativa, mais complexa se torna a tarefa.

Escrever uma história até o fim, tenha o tamanho que tenha, é uma tarefa difícil. E, sem papas na língua, às vezes tenho a impressão de que quanto mais estudo e me aprofundo no universo da escrita criativa, mais complexa se torna a tarefa.

Se por um lado a tarefa é complexa, por outro ela é tentadora: a literatura ficcional, de mãos dadas com os poemas, é uma das únicas capaz de emocionar e modificar os leitores em um nível profundo. Quantas vezes você chorou, refletiu, experimentou as mesmas sensações que os personagens e até repensou seus próprios valores depois de ler uma boa história de ficção?

A ideia de acompanhar o leitor por dias, meses, talvez anos, entre leitura e memória, me atrai.

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Existem vários motivos que levam as pessoas a escrever histórias. O meu motivo é fazer com que os leitores se envolvam com a narrativa — e quanto mais leitores, melhor. Devo admitir, nesse ponto, que sou uma pessoa ambiciosa. Escrever só para a família e para os amigos não me satisfaz.

No entanto, junto com a ambição vem o desejo de controle. Por mais que eu queira, não posso garantir que cada texto que eu escrever será lido e emocionará os leitores.

Para se dedicar ao ofício da escrita é preciso ser um pouco estoico: dedicar-se àquilo que podemos controlar e deixar o resto acontecer. No entanto, basta pensar um pouco para compreender que essa é (mais) uma tarefa complicada.

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Até que ponto a aleatoriedade pode ser benéfica? Porque, ao ter uma postura estóica na vida, contamos com o fator aleatoriedade — ou, se preferir, com a tal sorte — para nos guiar para onde quer que seja. Ao publicar textos na internet, aliás, vivemos a aleatoriedade na pele. Esperamos que pessoas desconhecidas encontrem nossos textos, os leiam e algo aconteça — esse inominável algo que nos ajudará a ser um pouquinho mais de quem queremos ser.

No entanto, se o Universo, a Natureza e as nossas histórias pessoais são governadas pelo caos, por que numa carreira de escrita seria diferente? Quem disse que sentar para escrever histórias precisa ser um ato organizado, lógico e consciente?

Ao escrever, não confunda: controle com fruição.

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Escrever uma história do início ao fim não deveria ser difícil, certo? Devia ser algo prazeroso, natural — uma vez que a pessoa esteja disposta a fazê-lo, é claro. No entanto, apenas querer, ter talento e treinar a escrita não basta. Escrever uma narrativa longa é como Haruki Murakami muito bem coloca: uma verdadeira maratona.

Por que alguém corre uma maratona? Penso que é apenas para mostrar (a si mesmo, aos outros, tanto faz) que é capaz de correr uma maratona. Até atletas querem mostrar que são capazes de. Mas, apesar da metáfora de Murakami funcionar, escrever um romance, por exemplo, está no âmbito do imaterial: enquanto a maratona provoca mudanças visíveis na pessoa, escrever nada mais resulta além de arquivos e mais arquivos em uma nuvem — ou em cadernos, que seja. No mundo prático, não faz diferença.

Dedicar-se ao ofício da escrita é, acima de tudo, um acordo individual. Ninguém tem mais interesse em ver aquela história terminada do que quem a está escrevendo.

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Sentar, escrever um pouco, deixar o tempo passar, sentar, escrever mais um pouco, deixar o tempo passar. O tempo, a repetição, o borbulhar de ideias — nada disso pode ser clarificado por manuais de escrita nem por oficinas, porque está no âmbito da experiência da escrita. A evolução individual só aparece quando olhamos nossos textos de antes, anos e mais anos antes, e rimos de nós mesmos pela nossa ingenuidade. Como fui capaz de publicar isso?

Mais uma vez, o acaso-caos-estoicismo. Para alguns, não publicar atrapalha a continuidade do processo; já outros se alimentam do fazer-mistério. Publicado ou não, o importante é ter o antes para olhar com o olhar de agora — e com o olhar de agora, rir de orgulho de si mesmo.

Mas o antes também traz as histórias boas-inacabadas, aquelas do poderiam ter sido e não foram — e é aqui que a frustração mora. Revisitar o passado da escrita e considerá-lo um tempo perdido pode ser o murchar do desejo de escrita.

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Uma história deveria ser apenas uma história, não uma afirmação, um legado, uma prova viva da intelectualidade individual. Uma história não deveria ser melhor nem pior do que uma mesa, uma janela, uma xícara ou quaisquer objetos fabricados pela humanidade. Uma história para ser e então ser descartada, como todo o resto.

Mas, na mente de quem a escreve, uma história é maior do que toda a vida na Terra. A história precisa ter um TCHAN, um TUM, um TABUM para fazer TUTATCHAN! em cada um que a ler. Precisa ser casca-caule-raiz-fruto-semente, toda comestível e venenosa, porque se não for assim, melhor nem começar a escrever.

Melhor nem começar o que quer que seja.

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Mas vamos a passos pequenos nessa história de fazer história. Começar é fácil, porque a ideia está ali, fresca como um banho gelado. Escrever o final também é fácil, porque é travessia já feita até o momento almejado. O difícil mesmo é o meio. Sim, o meio, porque é nele que a gente empaca ouvindo as vozes da nossa cabeça dizendo como aquilo que estamos escrevendo está ficando ruim. Basta que essas vozes ganhem corpo em algum dia torto-mal-dormido-sem-vontade para abandonarmos uma história. 

Fácil é papagaiar “ignore as vozes-juízes da sua cabeça, apenas escreva”, mas quero ver fazer. Quero ver, na repetição dos dias, sentar e continuar a mesma história um tiquinho que seja. Podemos culpar tantas coisas — o volume de informação, de afazeres, o capitalismo, a sociedade, os nossos pais —, mas só há um responsável por continuar uma história que começamos: nós. 

Óbvio, óbvio, óbvio e fácil escrever como somos inúteis, exigentes e responsáveis pelos nossos atos. Mas essas repetições, como ciclos, dizem mais sobre quem as escreve do que de quem as lê.

Não há remédio. Que seja difícil escrever.

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