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Artistas de Antes & Sempre

Ricardo Pereira do Nascimento, o Mestre Jacarandá

Em 1853 a Lei Imperial nº 704 determinava a criação da Província do Paraná. A pacata Curitiba se tornava a capital onde habitavam 6 mil pessoas (aproximadamente). Nesta época, começavam a surgir as sociedades e espaços culturais. No ano seguinte nasce o primeiro jornal, o Dezenove de Dezembro, fundado por Cândido Martins Lopes. 

Em busca de oportunidades na nova terra, chegavam à cidade professores, médicos, políticos e artistas. As recém-inauguradas Estrada da Graciosa e Estrada de Ferro alavancaram a economia e a efervescência das produções artísticas nos anos posteriores.     

Nosso personagem de hoje teve um papel fundamental no ensino da música em Curitiba. Os detalhes de sua vida são raros; nosso levantamento, de certa forma, centraliza algumas dessas informações. Estamos falando do Mestre Jacarandá, apelido pelo qual era conhecido, o músico Ricardo Pereira do Nascimento

Os primeiros registros sobre o ensino de música em Curitiba datam de 1857. O primeiro estabelecimento conhecido é o Lyceu de Curitiba, criado após a aprovação da Assembleia Providencial de São Paulo, em 31 de março de 1846. Abrindo um parêntese apenas para contextualizar, este espaço, após a emancipação política do Paraná, passa a se chamar Instituto Paranaense; após a Proclamação da República torna-se Gymnasio Paranaense; e em 1953 até os dias de hoje é chamado de Colégio Estadual do Paraná

Fechando nosso parêntese, no mesmo ano dos primeiros registros de ensino de música em Curitiba foi publicado o livro Pequena ARTE DE MÚSICA, o segundo livro publicado na capital. Antes, a Gramática da Língua Nacional, de Sebastião José Cavalcanti, havia sido publicada — portanto, fica evidente a importância da música para a sociedade provinciana em construção. 

Este livro foi publicado pela Typographia Paranaense, que pertencia a ninguém menos que Cândido Martins Lopes. O autor do livro que reúne lições “extrahida de varios professores”, é Ricardo Pereira do Nascimento. 

Já na capa do livro, podemos observar a proposta pedagógica: “Por método fácil sem a maior interrupção nas ideias dos alunos, dividida em duas partes. A primeira trata da sucessão e duração dos sons. A segunda dos ornatos e afetos que lhes pertencem”.

Mestre Jacarandá era negro, natural do estado da Bahia (possivelmente da cidade de Salvador) e, segundo as fontes encontradas, veio para a capital paranaense para dirigir a Banda Musical do 2º Regimento de Cavalaria. 

No jornal Gazeta Official do Imperio do Brasil (RJ), do dia 15 de novembro de 1847 encontramos uma nota do Ministério da Guerra, na qual podemos ler “Ao Rio Grande Sul, mandando dar baixa a Ricardo Pereira do Nascimento, músico do 5º Batalhão de Caçadores, visto ter concluído o tempo de serviço”. Não podemos afirmar que se trate da mesma pessoa, entretanto, é no mínimo curioso e, quem sabe, uma chave para futuras pesquisas. 

Nos documentos encontrados é sempre apontado que o Mestre Jacarandá era muito considerado e reconhecido na capital paranaense. É provável que seu reconhecimento tenha se dado justamente pelo seu conhecimento musical, entretanto, chama a atenção que a música de origem africana como os batuques e zabumbas, era peremptoriamente perseguida pelos chefes de polícia da então província em terreiros ou em dias de festa de Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Congadas. 

O que nos leva a pensar: teria o Mestre Jacarandá conseguido seu prestígio perante a sociedade curitibana por ser um virtuose? Ou teria sido o fato de ser um militar? Não sabemos, mas nossa hipótese é plausível, pois, no mesmo ano da publicação do livro, Ricardo Pereira do Nascimento assumiu o cargo de professor de música (instrumental e vocal) no Lyceu de Curitiba, em 25 de fevereiro. 

Capa do Livro de Ricardo Pereira do Nascimento, o Mestre Jacarandá.

Entretanto, o cargo de professor de música durou pouco tempo. Segundo uma matéria publicada no jornal Diário do Paraná: Órgão dos Diários Associados, do dia 10 de fevereiro de 1977, o maestro Bento Antônio Menezes substituiu o Mestre Jacarandá no cargo da instituição em 28 de maio. 

Até o momento não conseguimos encontrar algo que justifique o motivo da substituição poucos meses após a nomeação. Em um exercício livre de imaginação, é possível levantar a hipótese de que tal fato tenha ocorrido devido ao Mestre Jacarandá ser negro. Como dito, é uma hipótese e que de forma alguma desmerece seu substituto, que também foi importante na construção da história da música paranaense, especialmente em Curitiba. Quem sabe no futuro escreveremos sobre Bento Menezes. 

O fato é que dali em diante (ao menos até onde conseguimos ir com nossa pesquisa), não se tem mais notícias do Mestre Jacarandá, sua atuação e obra. De sua vida, apenas três notícias, uma publicada no jornal Dezenove de Dezembro, do dia 6 de maio 1885, a qual tratava da venda de uma casa dentro do terreno do Mestre Jacarandá na Rua do Aquidabam (antes, Rua da Entrada e atualmente, Emiliano Perneta), com “30 palmos de frente e outros tantos de fundo”. 

Neste mesmo jornal, um ano antes, mais precisamente em 10 de Abril de 1884, é publicada e autorizada uma indenização da Câmara Municipal. Segundo a nota, alguns materiais que estavam no terreno (pilares e alicerces) foram utilizados na construção das ruas da cidade. 

Já a terceira notícia pode ser encontrada no Jornal do Commercio (RJ) de 26 de janeiro de 1887, em uma pequena nota de falecimento. Segundo a nota, o músico faleceu na capital paranaense. Até onde pudemos investigar, a data mais precisa do falecimento é 11 de janeiro de 1887. 

Assim como nossas outras pesquisas para a coluna Artista de Antes & Sempre, esperamos que o nosso levantamento incentive outros pesquisadores a continuar investigando a vida e a obra de um dos precursores do ensino musical em Curitiba, o Mestre Jacarandá.

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