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Artistas de Antes & Sempre

Um Padre pós-vanguardista

Ter uma relação livre com a música, estar além da moralidade e não ter preconceitos estéticos foram princípios que permearam a vida e a obra de um dos compositores mais importantes que já passou por Curitiba.

Você sabe de quem estamos falando?

O saudoso Padre José Penalva (1924-2002) foi um célebre compositor que deixou um verdadeiro legado para a música. Nascido em Campinas, interior de São Paulo, mudou-se para Curitiba aos 18 anos para concluir seus estudos teológicos e tornou-se um dos nomes mais proeminentes da música erudita.

Mas Penalva não era apenas padre, nem apenas músico erudito. Ele ministrou cursos de filosofia, compôs peças para corais, lecionou teologia na PUCPR e contraponto e fuga na Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP)

Além disso, o Padre maestro não tinha preconceitos. Dentre suas escolhas para a seleção de repertório coral havia músicas de Francis Poulenc, que era declaradamente gay, algo nada recorrente dentro da liturgia.

Por volta da década de 1970, Penalva se afastou da produção de obras sacras para a liturgia, passando a ter uma ligação mais próxima com a música popular. Em uma das suas idas a estudos para a Itália, dedicou-se à música de vanguarda como o atonalismo e o serialismo, por exemplo – técnicas que logo seriam adotadas em suas obras instrumentais e orquestrais.

Após a vanguarda, dedicou-se ainda a obras de pós-vanguarda, utilizando como ferramentas composicionais o que havia de mais recente na produção musical mundial, mesclando diversas formas, estilos e gêneros musicais.

A obra de Penalva combina os elementos da música tonal brasileira com a música modal (medieval), passando pelo serialismo, atonalismo e dodecafonismo, sem esquecer o canto gregoriano e a polifonia renascentista.

Suas composições de vanguarda tem a influência de compositores como Johannes Brahms, Alexander Scriabin, Arnold Schoenberg e Anton Webern, por exemplo. Já em sua obra pós-vanguardista encontramos relações com a música de György Ligeti, Alfred Schnittke e Krzysztof Penderecki. 

A obra de Penalva conta com 246 peças, além de materiais didático-pedagógicos. Uma delas é a Mini Suite n.1, composta em 1974, que você pode ouvir clicando aqui.

“Talento é a obrigação da gente de estudar”. Se um padre que desafio os limites impostos pela liturgia disse, quem somos nós para discutir?

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