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Uma aula sobre música com o músico, maestro, compositor e arranjador Waltel Branco

Eu já havia pensado nesse texto faz algum tempo. Na verdade, esboçava as ideias de escrever algo sobre Waltel para publicar com um conteúdo extra do clube de assinaturas do Lambrequim. 

Só que essa semana acordei pensando muito no parnanguara Waltel. Especificamente, acordei um dia com o disco Guitarras em Fogo tocando na minha cabeça e em outro com o disco Kabiesi.  

Foi como se, de alguma forma, a minha mente estivesse tentando fazer com que eu recordasse de um dia muito especial da minha vida. O dia em que conheci pessoalmente o maestro e tive a oportunidade de fazer uma aula de música com ele. 

Nos primeiros meses de 2010, estávamos trabalhando na confecção do SongBook do Choro Curitibano e uma das atividades pela qual fiquei responsável foi a de escrever as biografias de alguns dos compositores que integraram a obra. 

Os nomes compositores que realizei pesquisa em acervos e entrevistas com descendentes são: Augusto Stresser, Antonio Melillo, Branco Tavares, Janguito do Rosário e Nilo dos Santos. 

Já nomes como Wilson Moreira, Pedrinho da Viola e Waldir Teixeira, foram entrevistados pessoalmente. Restava apenas um nome da lista para concluir o trabalho: Waltel Branco.

Eu já conhecia a obra de Waltel, sabia de sua trajetória artística e, poucos anos antes, havia sido publicada uma obra intitulada A obra para violão de Waltel Branco, na qual consta uma boa referência para pesquisa da biografia de Waltel, o que facilitaria meu trabalho.  

Mas eu não queria só reescrever o texto, então comecei a entrar em contato com os pesquisadores do livro citado acima, em busca do contato pessoal do maestro. 

Até que, por volta do final de março, o número da residência do maestro chegou até mim. Peço desculpas porque não consigo me lembrar quem me passou esse contato — mas acredito que tenha sido o professor Cláudio Menandro. 

Liguei uma, duas, três, até perdi as contas e quando quase desisti de tentar, o telefone foi atendido.

— Alô, por favor, eu gostaria de falar com o maestro Waltel Branco. 

— Alô? Oi, quem está falando? Aqui é Waltel. 

Eu reconheci a voz dele na hora e fiquei um pouco em choque, cheguei a demorar para responder. Conversamos, expliquei o motivo da ligação e, no fim, deu tudo certo. 

Combinamos de nos encontrar na rua XV, próximo a Boca Maldita. Não havia um local exato, ele apenas me disse “Você me encontra”. 

Nossa conversa aconteceu numa sexta-feira. Eu acreditava que seria mais fácil nos falarmos no fim de semana, mas ficou combinado de nos encontrarmos na segunda-feira, dia 03/05/2010 às 15h. 

No dia, eu cheguei mais cedo e fiquei por ali observando, pois eu só tinha visto o maestro por foto e ele também nunca tinha me visto, então fiquei com receio de não o reconhecer em meio as pessoas que passam por ali diariamente. 

Quando vi aquele senhor caminhando lentamente, observando as pessoas e mancando um pouco, me aproximei e dei um oi. Nos cumprimentamos e procuramos um lugar para sentar, ele olhou em volta e falou, vamos aqui, apontando para a lanchonete dos arcos dourados.  

Sentamos logo ali na entrada, naquelas primeiras mesas que ficam próximas ao balcão. Tratei de explicar novamente o motivo da entrevista e falar um pouco sobre o projeto. Eu devo dizer que não tenho certeza se ele entendeu na hora o que eu disse, porque pegou o livro que estava na mão e começou a apontar algumas coisas. 

O livro era o já citado A obra para violão de Waltel Branco. Ele abriu o livro, pegou uma caneta e começou a riscar um dos nomes escritos na página 7.

Ele continuou folheando o livro e parou na página 29. Onde também fez as suas observações

Eu nem pensei em questionar, apenas observava. Então perguntei sobre uma das técnicas que ele utilizou em uma de suas composições, técnica que ele chamava de Melonome

Essa é uma técnica composicional muito conhecida por compositores serialistas, na qual cada uma das letras do alfabeto corresponde a uma nota (altura), específica. 

Após riscar mais algumas páginas, Waltel me detalhou o processo de composição de algumas das obras, entre elas, uma em homenagem ao célebre maestro Júlio Medaglia. 

Em nossa conversa Waltel me ensinou outra coisa muito legal: pensar a música ou melhor, pensar a composição antes de sair escrevendo. Isso parece óbvio, mas ouvir de alguém que tem inúmeras composições e arranjos, foi muito importante. 

E por falar em arranjo, a última lição daquele dia, foi sobre como Waltel pensava seus arranjos. Ele me contou que nunca precisou de um piano para fazer um arranjo. 

Violonista desde a tenra idade, Waltel, me descreveu mais de uma dezena de instrumentos sendo distribuídos pelas casas e cordas do violão. Para Waltel o violão era um instrumento arranjador por excelência. 

Lembro bem da descrição de que a quinta corda do violão é um violoncelo, e que a segunda e a primeira são as madeiras como, por exemplo, a flauta e o oboé. 

Por fim, ele voltou às páginas iniciais do livro e fez uma dedicatória. 

Obrigado pela aula maestro, Waltel. Onde quer que você esteja saiba que seu legado jamais será esquecido.

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