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As primeiras gravações da humanidade não foram feitas por Thomas Edison

Recentemente, em uma conversa com a Mylle, percebi que é o momento de começar um novo livro. Espero sinceramente que você não seja como eu, sempre inundado por inúmeras ideias a cada nova tarefa que surge.

(Momento merchan, inserido pela Mylle: Pensando Musicalmente, primeiro livro do Menin, está disponível na nossa loja virtual)

Estou certo de que o tema central será música, mas ainda estou definindo o foco exato. Contudo, a intenção é explorar o universo do Som. Durante minhas leituras, pesquisas e reflexões, me deparei com uma informação que, por alguma razão, passou despercebida. 

Por muitos anos, a maioria de nós acreditou que Thomas Edison foi o pioneiro na gravação da voz humana. No entanto, em 2008 (já faz um tempinho né?), a First Sounds Initiative, uma organização dedicada a localizar e tornar públicas as primeiras gravações sonoras da história, fez uma revelação surpreendente. 

Durante sua pesquisa na central da organização, o acadêmico Patrick Feaster se deparou com informações sobre um bibliotecário francês, Édouard-Léon Scott de Martinville. Os registros indicavam que Scott de Martinville havia criado um dispositivo anterior ao fonógrafo, registrado como “fonoautógrafo“, em 1857.

Para validar essas descobertas, David Giovannoni, colega de Feaster, viajou a Paris para examinar os registros de Édouard no Departamento de Patentes francês. Lá, ele descobriu dois fonoautogramas de 1860 em excelente estado. Estes consistiam em folhas de papel revestidas de fuligem, que eram marcadas pela vibração de um fio feito de cerda de javali (!!!) em resposta a sons. Em termos simples, eram os antecessores das fitas magnéticas modernas.

David Giovannoni segurando um fonoautograma em 2008. | Foto: Isabelle Trocheris/New York Times

No final de 2008, Patrick Feaster, criou um método inovador para reproduzir esses registros. Ele transformou as linhas onduladas do fonoautógrafo em faixas de largura variável e as reproduziu usando um software especializado para trilhas sonoras de filmes ópticos. Embora essa técnica não pudesse corrigir deformações significativas nos fonoautogramas de Scott, era eficaz o suficiente para revelar sons de registros que, de outra forma, seriam muito danificados para serem ouvidos. Desde meados de 2009, os sons recuperados pela First Sounds foram produzidos usando esse método, que foi categorizado como VS (“estilete virtual”) e VW (“largura variável”).

Em 1860, Scott incluiu em seus fonoautogramas marcas de calibração de um diapasão de 250 Hz, o que nos ajuda a ajustar a velocidade de gravação do dispositivo de manivela. Há também registros sobreviventes de 1857, mas estes não possuem essa calibração, tornando difícil corrigir variações de velocidade e, consequentemente, reconhecer as melodias gravadas.

Édouard desempenhou múltiplas funções em Paris, atuando não apenas como bibliotecário, mas também como especialista em edição e tipografia para publicações científicas. Em um momento de inspiração, ele imaginou um mecanismo que pudesse converter palavras faladas diretamente em texto escrito, um conceito que antecipa os sistemas de transcrição de voz que conhecemos hoje.

Foto: Acervo/Institut National De La Propriété Industrielle

Observando o design das câmeras, que simulavam a capacidade visual humana, Édouard projetou um aparelho que emulava a audição, usando um cone para registrar as palavras ditas. Assim nasceu o conceito do fonoautógrafo. 

Posteriormente, a empresa Rudolph Koening, reconhecida por produzir equipamentos científicos de ponta, adotou e comercializou o fonoautógrafo. Em sua promoção, destacaram-no como um marco para o campo da acústica, sugerindo que, até aquele momento, a acústica estava em desvantagem em relação a outras áreas científicas, devido à ausência de ferramentas comparáveis ao impacto do telescópio na astronomia.

Ilustração “O Fonautógrafo” de A Ciência-História do Universo, Volume 3, p.124, 1909. 

Você deve estar se perguntando: o que exatamente Scott registrou? A resposta, dada a temática desta coluna, é evidente: Música.

Em 9 de abril de 1860, Scott registrou a melodia tradicional francesa “Au Clair de la Lune” e, no ano seguinte, apresentou seus achados à Académie des Sciences. Este registro detém o título de ser a gravação mais antiga e claramente identificável da voz humana. A interpretação das palavras tem sido debatida, mas uma reprodução revelada em 2010 estabelece a letra como “Au clair de la lune, mon ami Pierrot, prête moi—”, diferindo da versão inicialmente divulgada. Análises recentes indicam que Scott pode ter pausado, talvez para avaliar o espaço restante no papel, entre as palavras “Pierrot” e “prête”.

Interessantemente, Scott gravou “Au Clair de la Lune” em mais de uma ocasião. Uma dessas gravações, datada de 20 de abril de 1860, está preservada entre os documentos do físico Henri Victor Regnault na biblioteca do Institut de France. Esta versão, embora tão pausada quanto a primeira, apresenta uma qualidade superior, possivelmente devido a melhorias na técnica de gravação. Scott mencionou que a membrana estava em uma posição que imitava o tímpano humano e que seu sistema também contava com uma “janela oval”, possivelmente aludindo a uma segunda membrana. Nesta gravação, ao contrário da primeira, ele não reduziu a velocidade do cilindro entre “Pierrot” e “prête”, já que tinha uma noção clara do espaço disponível no papel.

Ouça as gravações! 

Devido à proeminência de Thomas Edison e seu fonógrafo, a contribuição de Édouard foi ofuscada. Quando faleceu (devido a um aneurisma), foi sepultado em um túmulo não identificado (sua família não tinha grana). Édouard, em seu testamento, expressou o desejo de que sua memória e sua inovação fossem perpetuadas. Em reconhecimento a sua contribuição, a Unesco, em 2015, incluiu “As primeiras gravações da humanidade de sua própria voz: os fonoautogramas de Édouard-Léon Scott de Martinville (c. 1853-1860)” em seu Registro da Memória do Mundo.


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