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Binário narrativo-antropológico

Dizer “não” é dolorido — e em 2023 tive que falar muitos nãos. Num misto de querer agradar todo mundo, ter muitas ideias e agarrar todas as oportunidades por nunca saber quais delas pagarão as contas, me enchi de mundo como quem enche um baú com tantos tesouros que torna o barco impossível de navegar.

Atiro para tantos lados que tenho uma quedinha por quem vive em linha reta. Chego a salivar quando ouço uma trajetória pessoal com a saborosa lógica narrativa, sem pontas soltas nem elementos adicionados ao gosto do autor.

Então vem a voz e diz que “a vida é caótica e, por isso, somos seres de narrativa”. Sim, eu sei, mas a explicação vem da ordem lógica, enquanto a calmaria de ouvir uma vida ordenada vem da ordem sensorial. Sou dessas que se afeta mais com a bagunça de dentro do que com a bagunça de fora.

A voz volta (e agora a identifico: é como um coro-chatgpt ditando frases sob o prompt “estruturas narrativas”) dizendo que “toda narrativa é recorte, inclusive as narrativas que criamos sobre nós mesmos”, mas ainda não me dou por convencida. Queria mesmo é me organizar como os outros se organizam. Possível influência do meu espírito japonês (para achar uma narrativa que justifique) desejando estratificar e hierarquizar a infância das minhas células. 

Porém, o fato é que não me organizo, e passo enfim a me dizer que “é no caos mesmo que tudo acontece”. Encontro uma palavra bonita pra isso (entropia) e sigo alguns dias-meses satisfeita, como se tudo se encaixasse. “Lógica, enfim!”, penso.

Nesse ciclo maravilhoso de construção de identidade (amo!), vivencio dois ou três processos de ruptura ao ano, seja com alguma parte de mim, seja com outras pessoas, ou ainda um mix de partes de mim + outras pessoas. Mesmo entendendo que processos de ruptura podem ou não ser consequência de uma negativa, para fins desta Cisma vamos olhar para os rompimentos posteriores ao não. 

A dor de se negar a fazer algo é a dor de uma escolha. Dizer “não” para alguém significa dizer “sim” para outra pessoa — inclusive quando essa outra pessoa sou eu mesma. A minha questão é que o custo de dizer “sim” para mim mesma às vezes é alto, a ponto de, meses ou anos depois, eu me pegar pensando se aquele rompimento foi mesmo necessário.

Apesar de nem todo “não” provocar um rompimento, muitos dos “nãos” que eu disse causaram, em maior ou menor grau, algum distanciamento com pessoas. E é aqui que a coisa fica complexa: o “não” nem sempre é simples e direto; por vezes é enviesado e cheio de ruídos, porque, seja por empolgação ou por incompreensão, vivo ilusões de que darei conta de tudo até estar prestes a naufragar.

Foi assim que, depois de afundar nas águas turvas da frustração e da ruptura, fiz um esforço para dizer claros “nãos” em prol dos meus “sims” (faz tempo que não jogo “the sims”, o coro-chatgpt informa). Se fui clara todas as vezes? Óbvio que não! Mas, em tom de retrospectiva-com-dois-meses-de-antecedência, posso afirmar que em 2023 fui capaz de avaliar melhor as situações antes de colocá-las dentro do meu baú de tesouros.

É fato que os nãos mais doloridos são os que outrora foram sonoros sims, também conhecidos como “mudanças de percurso”. Mesmo assim, assumir um novo posicionamento, ainda que resulte em uma ruptura, é melhor do que ficar arrastando situações que não são mais parte de quem queremos ser.

Assim, se por um lado vivenciei a dor de dizer “não”, tive as recompensas de dizer “sim”, como se os tesouros que escolhi colocar no baú fossem mais valiosos.

Em lugar de tudo-dúvida, passei a vivenciar quase-tudo-certeza. Quando olho para o meu baú de tesouros, sei cada um dos que guardo ali e como usá-los, sempre que eu precisar. Já não estou mais à deriva, porque o conjunto de tesouros, de certa forma, me guia. 

Ainda sou incapaz, é claro, de contar uma narrativa lógica sobre minhas escolhas, e recaio sobre a tentação de me justificar dizendo que essa inconsistência é que me caracteriza.

Talvez possa parecer estranho, mas tenho buscado “ouvir” os sinais que meu corpo manda. Quando penso em alguma escolha a ser feita, procuro sentir como meu corpo reage, antes de transformar tudo em pura lógica. Nada de místico aqui: se meu corpo vai ou se resiste, se fico tensa ou relaxada, se feliz ou amedrontada, essas coisas.   E não poderia ser diferente: é meu corpo, afinal, o barco que carrega o baú de tesouros a cada batalha.


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