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Esconderijos & acenos (ou a montanha-russa que é se conectar com o eu que escreve)

Sempre que encontro alguém que já participou de uma das minhas oficinas de Escrita Criativa, em determinado momento lanço a pergunta: e então, continua escrevendo? Como resposta, por vezes, recebo uma negativa tímida, acompanhada de promessas de escrita em um futuro próximo.

Nenhum mistério até aqui: postergar atividades que não são, necessariamente, nossa fonte de renda, é normal, aceitável e, talvez, a única maneira de dar conta do que quer que precisemos dar conta no momento.

O que me preocupa nessas respostas, no entanto, não é a procrastinação de leve, tão característica do nosso tempo. O que me preocupa mesmo é a desconexão com o eu que escreve que essas pessoas demonstram. Depois de acompanhá-las por meses falando sobre seus processos, suas ideias e suas histórias, saber que aquele pedaço delas foi pausado por tempo indeterminado me faz pensar sobre como a conexão com esse eu que escreve é frágil.

Aliás, compreensivelmente frágil. Mais cansados e com menos tempo disponível, nos tornamos volúveis e voláteis, saltando de um estímulo a outro num ciclo de busca pelo prazer e pela sobrevivência.

Diante desse cenário, qual a possibilidade de manter qualquer tipo de conexão com o eu que escreve? Antes de responder, preciso te contar um pouco sobre ele.

O eu que escreve é o eu que mora dentro daqueles que querem se expressar através da escrita. Ele quase nunca está só; vive rodeado pelos tantos outros eus que coexistem dentro de cada um de nós. No entanto, ao contrário de outros eus, talvez esse seja mais tímido, mais reprimido, porque ele não é necessário para vida prática — ou, ao menos, não aparenta ser — e por isso mesmo vai se escondendo, vai se escondendo até quase ser engolido por tudo mais de maior valor atribuído do que ele.

Acontece que o eu que escreve tem a característica de ser incômodo. Quanto mais espremido for, maior será o seu potencial de explodir na primeira oportunidade — afinal, por ser um eu de expressão, ele quer aparecer.

A depender do momento em que ele explode, nossa tendência é domá-lo ou apenas usá-lo por uma tarde ou duas à exaustão. Se domado, alimentará a bomba de repressão por mais um tempo; se usado à exaustão, proporcionará um prazer momentâneo que não levará os demais eus a lugar algum.

No entanto, o eu que escreve não se contentará com migalhas de atenção, principalmente se ele almejar ser grande. Nesse caso, usá-lo algumas vezes ou reprimi-lo só o transformará em um ímã de frustrações, que com o tempo evoluirá para um emaranhado de “eu poderia ter feito” misturado com “onde foi parar meu tempo”.

Claro que ninguém vai pausar a vida inteira para alimentar o eu que escreve, esse mimadinho — mas de algum jeito ele tem que caber na vida como ela se apresenta, não é? A não ser que você seja multimilionário e more em uma ilha particular (talvez nem assim) você será afetado pelo que acontece ao redor do mundo (olá, globalização!).

É muito difícil obter as condições ideias para deixar o eu que escreve confortável e feliz (as minhas condições preferidas são as descritas pela Virginia Woolf), mas também não podemos deixá-lo à mercê do “quando sobrar um tempo”.

Há, enfim, uma brecha — ou melhor, um ponto de resistência: enfiar o eu que escreve na vida que temos. Não importa o tempo disponível nem a predisposição do momento; a única maneira de manter e fortalecer o eu que escreve é enfiando-o na nossa rotina como ela se apresenta. 

O eu que escreve, se ele estiver dentro de você assim como está dentro de mim, recompensa aqueles que o alimentam com conexões.

Quanto mais o alimentamos, mais nos conectamos com outros eus, de dentro e de fora, tramando redes inusitadas, capazes de nos levar para qualquer canto que desejarmos, seja dentro ou fora de nossas mentes — e tudo que o eu que escreve pede é um cadinho de espaço, espaço e pausa nessas marés de demandas nas quais navegamos e que estamos, do começo ao final do dia, viciados em obedecer. 

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