Categorias
Pirambeira

GraphoGame: o balão da morte ou a semiótica da ignorância

No último dia 15, você deve ter acompanhado o debate dos presidenciáveis na Rede Bandeirantes. No dia seguinte, você e seus conhecidos devem ter comentado sobre um ou mais assuntos discutidos na noite anterior pelos candidatos. 

Muitas coisas abordadas pelos dois passaram batidas dos noticiários, entre elas a fala do atual presidente sobre um aplicativo que promete alfabetizar “a garotada” em 6 meses. Eis a fala: 

“O nosso Ministro da Educação tem um aplicativo que foi aperfeiçoado e já está há um ano em vigor, chama-se GraphoGame. Ou seja, num telefone celular se baixa o programa e a garotada fica ali. Letra A, ela aperta o A e aparece o som de A. Vai para sílabas. C e A: Ca. No passado, no tempo do Lula, a garotada levava 3 anos para ser alfabetizada. Agora, em nosso governo, leva 6 meses. Ou seja, a grande diferença está aí. A gente não fala que vai fazer, a gente mostra o que está fazendo. O seu Paulo Freire, Lula, não deu certo”. (grifo nosso). 

Antes de seguir e comentar sobre o tal aplicativo, é preciso relembrar: 

— O BRASIL NÃO UTILIZA A METODOLOGIA FREIRIANA. 

Não usa e nunca usou! Perdão mas, como diz a poeta, KEEP COOLER para não tomar no CAPS LOCK

Respira e segue

O aplicativo foi desenvolvido na Finlândia, e visava atender um público específico: 

crianças com dislexia. Por volta de 2011, a ferramenta passou a ser divulgada e adotada em alguns países para auxiliar no processo de aprendizagem do público citado. Aqui no Brasil, o app chegou em 2013, quando os pesquisadores finlandeses promoveram um encontro com educadores. 

Segundo eles, o aplicativo poderia ser utilizado tanto para crianças com transtornos como dislexia e discalculia, quanto por alunos com dificuldades de aprendizagem ou que vivem em baixas condições socioeconômicas. A versão em português foi desenvolvida e adaptada pelo Instituto do Cérebro da PUCRS. 

— Hum! Até aqui parece que está tudo bem…

Apenas parece! 

Vejamos o que dizem os especialistas em educação: 

Para Daniel Cara, professor e pesquisador na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP): “Como professor, coordenador do curso de licenciaturas na Faculdade de Educação da USP, eu afirmo: Esse GraphoGame citado pelo Bolsonaro é a maior picaretagem e irresponsabilidade que existe na alfabetização de crianças.”

Cara destaca ainda uma análise da Associação Brasileira de Alfabetização (ABAlf), sobre a política de Alfabetização do governo atual, citando o seguinte trecho: “(…) verifica-se forte voz da negação de todo um conjunto de construtos teóricos e práticos acerca da alfabetização e se tenta fazer crer que a ciência brasileira não é ciência, em especial no campo da alfabetização.”

Já Priscila Cruz, que é Co-fundadora e Presidente-executiva do Todos pela Educação afirma que, segundo o responsável por adaptar o jogo para o português, Augusto Buchweitz: “Sozinho o GraphoGame não irá alfabetizar a criança e não resolve esse imenso problema; não é esse o objetivo e nem poderia ser.”

Cruz ainda diz que: “Jamais seria dito por alguém responsável que um aplicativo seja capaz de alfabetizar uma criança sem o auxílio de um professor”. 

A própria PUCRS, em nota, afirma que “o aplicativo pode ser uma ferramenta de apoio, mas que sozinho não é capaz de alfabetizar”, e ainda que “este não foi e não é o objetivo da iniciativa e dos pesquisadores em nenhum momento. Para uma criança ser alfabetizada ela precisa de instrução sistemática e consistente, precisa de vivências e sem dúvida alguma do apoio da escola e especialmente de educadores“.

E ainda, o próprio guia do jogo, elaborado pelo MEC, indica que ele deve ser usado “no apoio à preparação para a alfabetização” e que o “aplicativo não substitui a atuação dos professores”.

O balão da morte ou a semiótica da ignorância

Eu não faço ideia de qual seja o objetivo do app ao trazer em uma das imagens um balão com um símbolo conhecido pelo público como sendo da morte

Tudo bem, isso não tem a ver com o governo e sim com os desenvolvedores do app — e eu não quero fazer sensacionalismo aqui, mas o dito “defensor da família”, permitir que “a garotada”, estudantes da pré-escola e dos anos iniciais do ensino fundamental visualizem diariamente um balão da morte me parece um tanto quanto contraditório. Teria o inominável visto o balãozinho e pensado “no tocante a isso daí, é uma homenagem à milícia, tá ok?”

Personagens do jogo e o tal balão (imagem disponível no site do MEC)

O governo federal tem apenas informações sobre quantidade de downloads, ou seja, não possui estudos sobre a efetividade no processo de alfabetização. Dados do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) apresentam o aumento do percentual de crianças sem saber ler e escrever.

Outro dado significativo é que foram realizados, aproximadamente, 1,7 milhão de downloads que representam 9% dos estudantes da faixa etária indicativa para o uso do app. O MEC pagou R$ 274,5 mil para liberar o programa no país, entretanto, não obteve licenciamento para que os professores acompanhassem de forma remota a evolução das crianças.

You Lose

Só para deixar claro, o objetivo do texto é apenas demonstrar de forma clara e objetiva que o atual governo não tem competência para lidar com questões relativas à área da Educação (aliás, em nenhuma área). 

É importante frisar que de modo algum estamos fazendo uma crítica ao uso da gamificação no processo de ensino e aprendizagem, inclusive são notórios os trabalhos de pesquisa desenvolvidos sobre o assunto — e você pode conferir alguns aqui.

Assine o Lambrequim