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Cismas

inquietações (meio óbvias e vergonhosas) sobre escrita autoral

1.

Sentar para escrever um livro. Parar tudo para escrever um livro. Gastar um tempão para escrever um livro. Fazer planos e esquemas para escrever um livro. Levar anos para escrever um livro. Passar raiva escrevendo um livro. Remexer os esqueletos do armário para escrever um livro. Acordar e dormir pensando em um livro. Descobrir coisas sobre mim escrevendo um livro. Mesmo me achando péssima, continuar a escrever um livro. Ter um prazo para escrever um livro. Chegar ao fim da escrita sabendo que não é o fim do livro. Retrabalhar o texto de um livro. Pedir que os amigos leiam o tal livro. Enviar para editoras os originais desse livro. Depois de anos parado, remexer nesse livro. Perceber que continua horrível o tal livro. Mesmo assim, publicar o livro. Divulgar o livro. Planejar o lançamento do livro. Contar para todo mundo sobre o que se trata o livro. Convencer todo mundo sobre a qualidade do livro. Colocar para vender o livro. Distribuir o livro. Dar de presente o livro. Carregar sempre na bolsa o livro. Conviver com o livro. Autografar o livro. Pensar no próximo. 

2.

Ninguém vai ao lançamento do livro. Ninguém lê o livro. Ninguém nem critica o livro. Ninguém pega o livro. Comprar então (vish), ninguém nem se importa com o preço do livro. Ninguém pergunta sobre o livro. Ninguém lê a sinopse do livro. Ninguém se emociona com o livro. Ninguém espera pelo livro. Ninguém avalia o livro. Ninguém usa a hashtag booktok com o livro. Ninguém se interessa pelo livro. Ninguém grava podcast sobre o livro. Ninguém precisa do livro. Ninguém expõe o livro. Ninguém curte a capa do livro. Ninguém compartilha o livro. Ninguém cita o livro. Ninguém escolhe para um clube de leitura o livro. Ninguém premia o livro. Ninguém adapta o livro. Ninguém rasga o livro. Ninguém queima o livro. Ninguém cheira o livro. Ninguém tira o livro da estante.

3.

O tempo de um livro é um tempo estranhíssimo. O tempo de feitura. O tempo de leitura. O tempo que ele sobrevive. O tempo do livro é sempre agora para quem o encontra pela primeira vez.

4.

Escrever um livro como um mergulho. Escrever um livro como uma equação matemática. Escrever um livro como uma síntese. Escrever um livro como um tratado. Escrever um livro como uma defesa. Escrever um livro como um desabafo. Escrever um livro como um segredo. Escrever um livro como uma regalia. Escrever um livro como um espetáculo. Escrever um livro como uma sucata. Escrever um livro como um remédio. Escrever um livro como uma morada. Escrever um livro como um perfume. Escrever um livro como um estribilho. Escrever um livro como um arrego. Escrever um livro como um aconchego. Só escrever um livro (não me basta).

5.

Escrever um livro temático é diferente de escrever um monte de textos e depois juntar. A costura é diferente. A unidade é diferente. A sensação é diferente.

6.

Mania de fazer antes pelos outros. Mania de esperar o momento certo. Mania de não apostar nas próprias fichas. Mania de querer fazer algo mais útil. Mania de procurar validação. Mania de procurar exemplos. Mania de tentar descobrir porque o outro faz e eu não. Mania de me achar menor, sempre iniciante. Mania de me afundar naquela deprê. Mania de desistir cedo demais. Mania de não pedir ajuda quando a coisa aperta. Mania de ficar no meu cantinho. Mania de achar que já passei da idade. Mania de achar que já gastei muito tempo. Mania de não acreditar e não investir e não apostar e ficar sempre na mesma. 

7. 

Admitir que do muito escrito pouco se salva, e menos ainda, pode ser reunido. Hora de resetar as manias: com escrita solta e projeto claro, sentar para escrever um livro.

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