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O que aconteceu com Gotye? (spoiler: ele não morreu)

O que aconteceu com Gotye? (spoiler: ele não morreu)

Numa dessas buscas por distração instantânea, eis que o YouTube me sugere este vídeo:

Maravilhoso! Tão cativante quanto essa música do… como era mesmo o nome dele? Ah, sim: Gotye. Está no título do vídeo. Eu ouvia bastante as músicas dele, uma época.

Mas, antes mesmo que eu formulasse a pergunta, a dança acaba e dois ou três vídeos relacionados sugerem: o que aconteceu com Gotye?

Mal sabia eu que estava começando ali a minha primeira Investigação Musical.

Quem é Gotye?

Wouter “Wally” De Backer, mais conhecido como Gotye, é um músico belgo-australiano que alcançou fama mundial com seu sucesso de 2011, Somebody That I Used to Know, em dueto com a cantora neozelandesa Kimbra.

Esta música não foi apenas um hit que dominou as paradas: tornou-se um fenômeno cultural, ganhando vários Grammys redefinindo a música viral e seu impacto na indústria musical.

No entanto, o que torna a trajetória de Gotye particularmente intrigante não é apenas seu súbito ascenso à fama, mas sua subsequente decisão de se afastar do cenário musical comercial.

Em uma época dominada pelo pop e pela música eletrônica, Somebody That I Used to Know se destacou por seu som único e a arte de seu videoclipe.

Dirigido por Natasha Pincus com um orçamento modesto financiado pelo próprio Gotye, o estilo distintivo de animação em stop-motion do vídeo adicionou um charme especial à música, ajudando-a a acumular mais de dois bilhões de visualizações no YouTube.

O sucesso dessa faixa não se refletiu apenas nos números, mas também na maneira como remodelou as percepções sobre a fama na internet e seu impacto real no mundo da música.

Inspiração bossa nova

Antes de continuar a ler, ouça a música abaixo:

A semelhança não é mera coincidência: a música Somebody That I Used to Know incorpora uma amostra (sample) de Seville, obra de Luiz Bonfá lançada por ele em 1967, o que levou Gotye a um acordo (antes mesmo do sucesso viral) para a divisão dos royalties.

Apesar de Bonfá ter falecido em 2001, essa decisão garantiu que a família do violonista recebesse uma parcela dos lucros gerados pelo sucesso mundial da canção — que, em 2013, dois anos após o lançamento de Somebody That I Used to Know, já somava 1 milhão de dólares — respeitando assim os direitos autorais e reconhecendo a contribuição musical original de Bonfá.

Vale lembrar que Gotye usou uma sample da música, como muitos músicos e DJs fazem. Então, se você ouviu por aí que Gotye plagiou uma música brasileira, você foi enganado.

Abrindo mão de 10 milhões de dólares

Bem, Gotye talvez não tenha se importado muito em ceder parte dos direitos autorais de sua música viral para os herdeiros de Bonfá: afinal, em 2014, ele rejeitou 10 milhões de dólares em receita de anúncios do YouTube, priorizando a integridade artística sobre o ganho financeiro.

Ao fazer isso, ele declarou que nunca teve interesse em ganhar dinheiro com sua música — tanto que ele disponibiliza gratuitamente os stems de sua música para remixagem, contribuindo, assim, para a onipresença da canção até hoje.

Uma busca rápida no shorts do YouTube ou no TikTok já demonstra que muitos jovens (alguns que talvez até tenham nascido no ano de lançamento da canção) usam a música em seus vídeos.

Essa decisão sublinha um, não apenas uma empreitada comercial.

Mas a recusa de Gotye em comercializar seu sucesso, ressaltando seu compromisso com a música como uma forma de arte, não é o único fator que o diferencia.

Gotye escolheu ser artista de um único hit

Apesar do colossal sucesso de Somebody That I Used to Know, Gotye não perseguiu a fama que se seguiu. Em vez disso, ele escolheu um caminho mais tranquilo, lançando apenas um álbum ao vivo antes de aposentar Gotye.

Depois disso, Wally continuou tocando com sua banda The Basics, em incursões na gestão de gravadoras e em projetos como o Forgotten Futures, que tem o objetivo de resgatar instrumentos musicais eletrônicos que eventualmente caíram no esquecimento com o avanço tecnológico, tal qual o Ondioline, um dos primeiros sintetizadores já criados.

(O Ondioline daria uma nova investigação musical, mas se você quer mergulhar no assunto, vou deixar o link de vídeo em inglês aqui)

Enquanto Gotye optou por um caminho menos convencional após o sucesso de Somebody That I Used to Know, Kimbra, a colaboradora neozelandesa na faixa (que eu passei a ouvir depois de sua colaboração), seguiu uma trajetória mais tradicional na indústria da música, buscando e consolidando uma carreira internacional.

Após o estrondoso sucesso conjunto, Kimbra capitalizou sua visibilidade global lançando álbuns que mostraram sua versatilidade e talento, recebendo aclamação crítica e mantendo uma presença ativa no cenário musical internacional.

Gotye é alguém que nunca conheceremos

Não é todo dia que encontramos um músico que alcançou a fama global, mas optou por trilhar um caminho definido pela satisfação pessoal e pelo cumprimento artístico, em vez de se orientar por paradas e números.

Nesse limiar entre a visibilidade que o digital pode proporcionar e o compromisso com a autenticidade musical e a liberdade criativa, Gotye nos relembra o artista como indivíduo, e não apenas como um produtor de sucessos.

P.S.: Gotye é tão atual que em 2003 o Linkin Park já fazia cover dele com IA 🤭


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