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Os flyers que nunca voaram Lambrequim Mylle Silva

Os flyers que nunca voaram

“O futuro é a escuridão — e isso é a melhor coisa que o futuro pode ser, creio eu” foi a frase de Virginia Woolf que citei no dia da inauguração da Têmpora Criativa — e eu não poderia ter escolhido uma frase melhor.

Abrir um espaço cultural físico com o intuito de reunir pessoas sete meses antes do distanciamento social virar rotina é uma dessas grandes ironias da vida. Mas, mesmo não sendo a situação que planejávamos, eu e o Cássio Menin tivemos a chance de nos adaptar e seguir trabalhando nessa nova realidade. 

Em menos de dois anos e diante das limitações, realizamos com a Têmpora Criativa mais do que poderíamos imaginar. Fizemos as pessoas criar, sonhar, pensar de outras maneiras sobre seus trabalhos artísticos e alguns até ajudamos a colocar no mundo. Mesmo sem termos reunido essas pessoas fisicamente, as reunimos ao redor de uma ideia — e talvez isso seja mais forte do que a materialização do encontro.

Por isso, manter ou não o espaço físico da Têmpora Criativa se tornou um assunto recorrente ao longo da pandemia. No entanto, o ponto de virada aconteceu no final de março, quando fomos informados de que o nosso contrato de locação não seria renovado.

A Têmpora Criativa, como a planejamos em 2019, nunca iria acontecer.

Mudar sempre me causa medo e ansiedade. Deixar a zona de conforto, como os personagens das histórias que leio, assisto e escrevo, não é nada atrativo na vida real. Aliás, acredito que mudar (de casa, de vida, de perspectiva) não é fácil para ninguém. Reconhecer, para dentro e para fora de nós, que o modo de vida que buscamos hoje pode não ser o mesmo que buscávamos antes é amedrontador. A pesquisadora Brené Brown, famosa por sua palestra no TEDx sobre vergonha, chama a habilidade de reconhecermos que somos seres falhos e vulneráveis de Vida Plena. 

Abrir a caixa com os flyers foi um misto de nostalgia e fracasso. Os planos para o espaço físico, feitos em 2019, pareciam saltar de um passado ainda mais distante, sem máscaras nem receios de reuniões. Os detalhes da decoração; os planos de oficinas, palestras, encontros; a livraria… Toda uma realidade que nunca aconteceu resumida em 2 mil folhetos encalhados.

Ao desvelarmos a escuridão do futuro e nos depararmos com o presente, somos capazes de rever as escolhas feitas no passado. Munidos com novas armas, talvez notemos que estávamos perdendo tempo com conceitos limitadores ou nos apegando a ideias nostálgicas. Olhar para trás é necessário, porque é de lá que tiramos nossas lições, mas precisamos viver o presente, porque é aqui que estamos.

Passamos os últimos meses ponderando manter ou não manter o espaço físico. Quando um sonho se torna mera teimosia? Yuval Harari aponta, em várias de suas palestras e entrevistas disponíveis no YouTube (indico essa entrevista), que a capacidade de adaptação e aprendizado será essencial para todos nós daqui para frente. À medida que as profissões forem se transformando, seremos obrigados a reaprender nossa forma de atuar no mundo, seja nos atualizando constantemente ou ainda mudando de área de uma hora para outra.

Era preciso escolher, e escolher é difícil. 

Apesar das incertezas sobre o futuro, optamos por nos readaptar, mas sem abrir mão, ainda, do espaço físico. Nosso sonho de reunir pessoas em lançamentos de livros e outras atividades culturais continua mais forte do que o nosso medo da escuridão.

Como todos, tivemos nossos problemas e nossas dúvidas ao longo da pandemia. Porém, decidimos nos focar em algo maior do que nós mesmos: em defender a importância da arte.

E é aqui que você entra. Sem a companhia de cada pessoa que participou das nossas aulas, leu nossa newsletter e acompanhou nosso trabalho nesses quase dois anos de existência, nós já teríamos deixado de acreditar. 

Ainda estamos aprendendo a seguir na direção que o vento nos levou. Como acontece em muitos momentos do processo criativo, a Têmpora Criativa cresceu e ganhou vida própria, seguindo além da vontade de seus criadores. Essa mudança de espaço é o empurrão que precisávamos para calibrarmos nossas velas e aproveitarmos a viagem dentro da escuridão — porque, no fundo, eu também acredito que essa é a melhor coisa que o futuro pode ser. 


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