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Para motivações não há atalhos: uma introdução ao ensaio Por que Escrevo, de George Orwell

Para motivações não há atalhos: uma introdução ao ensaio Por que Escrevo, de George Orwell

É quase uma certeza que você tenha começado essa leitura em busca de respostas. Duvido, inclusive, se existe escritora ou escritor que não tenha se feito essa pergunta ao menos uma vez — aliás, quaisquer artistas, basta trocar o verbo. Perceba que não há ponto de interrogação: a pergunta fica cirurgicamente implícita, com o uso do why ao invés do because, no original — o equivalente a usar o nosso por que no lugar de porque. Afinal, se fosse Porque escrevo, a resposta já estaria dada.

Mas, claro, estamos falando da escolha de palavras para o título de um ensaio escrito em 1946, no meio da Segunda Guerra Mundial. Nada aqui pode ser trivial. Para responder a tal pergunta, um homem revisita, aos 43 anos, memórias, circunstâncias e motivações que o levaram a escrever o que ele escreveu. Este homem, cuja vida é costurada por guerras e turbulências políticas, é o indiano Eric Blair — mais conhecido como George Orwell (1903-1950).

A primeira pista que Orwell nos dá de que sua trajetória literária pode não ser tão diferente à de muitos de nós é a sua tentativa de abandonar a ideia de ser escritor — mesmo percebendo, ainda na infância, seu interesse pela escrita. Junte isso a uma timidez persistente e o hábito de criar histórias em sua cabeça e você terá um perfil bastante comum dos famosos “anos de formação” de escritoras e escritores. O incomum, precisamente apontado pelo próprio autor, é o contexto em que surgem os interesses literários e criativos — e o de Orwell é singular: tanto ele quanto seu pai serviram, de diferentes formas, à Inglaterra (uma vez que, na época, a Índia fazia parte do Império Britânico); sem falar, é claro, que a juventude de Orwell coincide com o período da Primeira Guerra Mundial. 

Se o contexto é o que mais influencia nossas motivações para escrever, seguindo a lógica de Orwell, somos invariavelmente mulheres e homens do nosso tempo. No entanto, ele também nos lembra: existe também uma “atitude emocional”, adquirida em conjunto com o contexto, e da qual nunca escapamos por completo. É aqui que entra a tão famosa disciplina, a busca por equilibrar nossos temperamentos sem perder o impulso primeiro que nos mantém escrevendo.

Mas não são as observações sobre o contexto que tornaram este ensaio tão famoso: são as tais motivações para escrever, além do mero ganha-pão. Para Orwell, se escrevemos é por puro egoísmo, por entusiasmo estético, por impulso histórico e por propósito político. Apesar de, numa primeira leitura, elencar apenas quatro motivos possa parecer um tanto quanto generalista, fica difícil não concordar: no final do dia ele traduziu, de forma bastante sucinta, os principais motivos que nos levam a escrever.

As quatro motivações, é claro, podem entrar em conflito, se combinar, se sobrepor, ou ainda variar de acordo com a época e o contexto em que a escritora ou o escritor vivem. Orwell sabe, por exemplo, que seus livros são políticos, mas também os escreve visando uma estética — e, assim, declara que seu objetivo é “fazer da escrita política uma arte”.

Trazer leveza para assuntos complexos e pesados: isso soa familiar pra você? Talvez as motivações listadas por Orwell ainda ressoem tanto em nós porque vivemos sob o eco do século XX. Nossas vidas também são costuradas por turbulências políticas e por guerras (algumas mais literais do que outras), nos gerando dúvidas, ansiedade e uma busca frenética por respostas prontas. Diante de questões como aquecimento global, polarização, neoliberalismo, desigualdade social, inteligência artificial e os sempre persistentes conflitos armados, escrever (assim como procurar uma resposta direta no ensaio de Orwell) é inútil.  

O que as motivações de Orwell nos ajudam a enxergar não é uma razão ou uma utilidade para a escrita. Livros ou textos, por si mesmos, não evitam guerras, não matam a fome e nem transformam o mundo. Livros são apenas um amontoado de ideias ordenadas palavra após palavra — e ordenar palavras é enfadonho e demorado. Por isso, explorar essa tal motivação para escrever tem muito mais a ver com a relação indivíduo-escrita do que com a relação escrita-mundo. 

Balizados por nossas motivações individuais, escrevemos em forma de aposta — ou, se preferir, de esperança: em nome da grande inutilidade que é ser lido para, quem sabe, contribuir com a construção coletiva dessa ilusão chamada realidade. 


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