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Um espaço entre o não e a experiência

Toda e qualquer forma é lenta. Toda e qualquer forma é rodeio. Faz desaparecer a economia da eficiência e da aceleração.

Byung-chul Han

Nem sempre produção é sinônimo de permissão. Na última Cisma já falei sobre isso, mas o assunto ainda me instiga. Entender o lugar que buscamos na nossa relação com a arte sem dúvida não é a mesma experiência para todo mundo. Entre tabus, sonhos e escolhas sobre como sobreviver, parece haver uma dúvida constante sobre se somos criadores ou criaturas.

Mas hoje quero esquecer dos tabus e limpar um pouco a casa para falar dos incômodos mais comuns em perseguir um trabalho artístico como forma de experiência — uma experiência sobre a qual se vive e se reflete. 

Visando o espaço para o pensamento, para o não-fazer, para o não-estudar e para o não-produzir, separei alguns tópicos que sempre me ocorrem em conversas com outros artistas, e os escrevi de maneira bem direta para que, a partir deles, cada um possa refletir sobre a sua relação com a arte.

Não passe vontade criativa

Antes de mais nada, é preciso ter consciência de que você terá que testar muitas formas de relação com a arte até encontrar a que mais combina com você. Não há respostas óbvias, mas também nada está escrito na pedra para você seguir como regra fundamental. Por isso, faça todos os testes que achar necessários, desde jobs institucionais até criações experimentais, e crie nas mais variadas linguagens artísticas. 

Produza e mostre para as pessoas

Quando você produz, no seu tempo, uma obra e a compartilha com os outros, coisas acontecem. Não estou falando de fama ou reconhecimento, mas sim de relações humanas. Ao se mostrar, você está dizendo para o mundo o que você faz. A partir disso, você começa a construir uma rede — a sua rede que, independente do tamanho, vai te ajudar a seguir em frente.

Aprenda tudo que puder te ajudar

Saber nunca é demais, então comece a aprender tudo o que puder te ajudar a desenvolver as suas habilidades artísticas — mesmo que isso signifique aprender sobre assuntos burocráticos ou que simplesmente não têm nada a ver com a sua arte. Quanto mais ferramentas e assuntos você dominar, mais independente você será para produzir o que bem entender. Mas lembre-se: aprender tudo não significa que você precisa estudar o tempo inteiro. A chave é entender o seu limite, tanto na produção quanto nos estudos, para não se sobrecarregar.

Dê um tempo sempre que precisar

Às vezes é preciso se afastar para ver melhor — e isso se aplica muito bem ao trabalho artístico. Quando estamos muito envolvidos ou até desanimados com a forma como as coisas estão andando, não há mal algum em dar um tempo. Talvez assim, de longe, seja possível separar o que incomoda do que é possível manter para, então, seguir em frente.

Coloque as expectativas no lugar

Sonhar alto é ótimo, mas às vezes a queda machuca tanto que faz muita gente boa desistir no caminho. É preciso ter uma autoconsciência do momento artístico em que estamos e saber o que esperar desse momento para não nos iludirmos querendo mais do que podemos alcançar. Claro que todo artista quer ser visto, mas se você sair de uma experiência desanimado demais com o resultado, não terá energia para continuar produzindo. Por isso, ao invés de esperar demais, olhe ao seu redor e reconheça que a próxima experiência é mais uma das muitas que você viverá — e que medir talento artístico com resultados é negligenciar o que o processo criativo tem a oferecer.

Cada ideia faz parte do seu grande projeto

Ao invés de sofrer porque um dos seus projetos não foi tão bem aceito quanto você esperava, é mais simples pensar que cada ideia produzida faz parte do seu grande projeto artístico — inclusive as ideias malsucedidas. Claro que é complicado lidar com um fracasso, ainda mais quando há muita energia investida, mas é provável que, sem testar e falhar um monte de vezes, você nunca conseguirá produzir uma obra que atinja as pessoas. Olhar para o todo, e não só para as partes, pode te colocar em um lugar mais realista em relação ao que você está produzindo.

Continue naquilo que te chama mais

Há tantas fórmulas e formas de produzir, tanta informação vomitada na internet, que é fácil ficar perdido. Por vezes, parece que precisamos nos colocar em caixinhas, em outras, que precisamos ser autênticos e únicos. Mas o fato é que, quando você descobre o que quer fazer e começa a fazer do seu jeito, o seu trabalho passa a ressoar nas pessoas. Mais uma vez, não falo de fama nem reconhecimento, mas de conexão. Pessoas se conectam ao que você produz, e passam a estar com você — e, às vezes, tudo o que elas precisam é que você fale do seu trabalho para elas. 

Entre o não a e a experiência

Em meio a todas as relações que possamos ter com a expressão artística que admiramos — expectadores-leitores, participantes dos meios artísticos ou artistas-criadores — todas as experiências são válidas. O que não é válido, no entanto, é escolhermos participar dessa grande conversa de formas que nos frustram porque não nos achamos capazes de fazer o que realmente gostaríamos.


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