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A teoria da bolsa de ficção (ou escrevendo estórias livres de conflito)

No ensaio “A teoria da bolsa de ficção”, a autora Ursula K. Le Guin defende uma forma diferente de contar histórias. Ela propõe uma revisão do conceito heroico, encorajando narrativas que trazem o ponto de vista daqueles que cuidam das coisas cotidianas, em oposição àqueles que partem em grandes aventuras.

Bolsas sacolas mochilas malas recipientes diários casas computadores celulares redes-sociais. Neles carregamos memórias, afetos, informações e objetos, da futilidade extrema a itens de primeira necessidade.

Carros ônibus motos aviões barcos bicicletas. Nos permitimos carregar o tempo inteiro, enquanto não nos guardamos em caixas de areia e concreto.

Tudo isso, é claro, faz parte do nosso cotidiano. Não pensamos muito sobre carregar e sermos carregados; apenas seguimos. Seguimos dando por óbvio que iremos de um lugar a outro com nossas bolsas a tiracolo, para então vivermos alguma aventura particular.

Mas e se a bolsa e o que carregamos dentro dela for o que dá sentido para a estória? É o que propõe Ursula K. Le Guin em seu ensaio A teoria da bolsa de ficção, publicado em português pela n-1 edições.

Uma folha uma cabaça uma concha uma concha uma rede uma mochila uma sacola uma cesta uma garrafa um pote uma caixa um frasco. Um contentor. Um recipiente. (p. 19)

Ursula K. Le Guin (1928-2018) foi uma autora norte-americana de ficção científica, sendo a primeira mulher a ganhar o prêmio Nebula de melhor romance. Apesar deste ensaio ter sido o meu primeiro contato com a obra da Ursula, a leitura me impactou de várias maneiras. A teoria da bolsa de ficção é muito diferente de tudo que já li sobre construção de narrativas.

Logo no primeiro parágrafo, a autora apresenta seu argumento com riqueza de metáforas: apesar da imagem do caçador de mamutes prevalecer como imaginário coletivo sobre a nossa ancestralidade, o fato é que para encher a barriga, nossos ancestrais coletavam todo tipo de planta, raiz e semente. Coletar não ocupava muito tempo — cerca de quinze horas semanais, a autora diz. Então, com o que se distrair no restante da semana? Contando estórias.

No posfácio do livro, a tradutora Luciana Chieregati conta que optou utilizar a palavra estória para manter a intenção de Ursula de abordar o storytelling, ou a contação de histórias — histórias inventadas, como nos lembra João Guimarães Rosa:

A estória não quer ser história. A estória, a rigor, deve ser contra a História. 

A palavra estória é um neologismo proposto por João Ribeiro em 1919 para diferenciar, como no inglês, a história factual da estória ficcional. Infelizmente o termo nunca foi dicionarizado e caiu em desuso. Por isso, não estranhe: continuarei utilizando a palavra estória, já que é sobre estória que Ursula se propõe a falar.

Ursula imagina que talvez algum ancestral nosso, extremamente entediado, tenha voltado de algum lugar com uma estória de caçada — uma estória com ação, emoção, conflito, colegas mortos e recompensas. Eis que esse entediado, de repente, se torna o Herói, o único sobrevivente de uma jornada perigosa — e a partir desse relato, o resto do grupo passa a existir em função dele.

O que temos então é a repetição de uma mesma estrutura, a Jornada do Herói, hoje organizada e replicada com cada vez mais velocidade pela indústria do entretenimento. Mas afirmar isso é dizer o óbvio, assim como é óbvio que um dos símbolos da tecnologia é a lança, o osso, ou o artefato, comprido e pontudo, utilizado para matar.

(…) todos já ouvimos tudo sobre todos os paus e lanças e espadas, sobre as coisas para esmagar e espetar e bater, as longas coisas duras, mas ainda não ouvimos nada sobre a coisa em que se põem coisas dentro, sobre o recipiente para a coisa recebida. Essa é uma estória nova. Isso é novidade. (p. 19)

Claro que a Jornada do Herói é uma entre várias estruturas narrativas existentes — e, por isso, é importante conhece-la, assim como é importante conhecer outras estruturas, como a Jornada da Heroína ou a Pirâmide de Freytag. No entanto, a reflexão proposta por Ursula não se trata apenas de substituir uma forma por outra, mas sim de como o Herói se tornou onipresente em nossas estruturas narrativas.

Para exemplificar isso, ela cita um “glossário” escrito por Virginia Woolf no cabeçalho do caderno do que viria a ser o livro Três Guinéus: entre seus verbetes, Virginia definiu heroísmo como “botulismo” e herói como “garrafa”. Eu agora proponho a garrafa como herói, arremata Ursula.

Junto com a supervalorização dos atos heroicos viria também o endeusamento do conflito como única razão de existir de uma narrativa. E, bem, essa reflexão me pegou. Não foi uma, nem duas, nem três vezes que advoguei a favor do conflito nas narrativas. Mas minha defesa do conflito já estava com os dias contados: faz algum tempo que me sinto incomodada com essa quase obrigação de enfiar ação em tudo. Ao ser confrontada sobre quanta importância damos ao conflito narrativo, Ursula deu forma a um incômodo que me era latente.

Mas se tirarmos o herói e o conflito da jogada, o que restaria?

Com maestria, Ursula nos conta que teríamos outras formas de contar estórias, com outros pontos de vista, experiências e vivências. Nós teríamos estórias não só do ponto de vista de quem foi viver uma grande aventura (normalmente o homem, em especial na antiguidade), mas de quem ficou cuidando das coisas — ou seja, da mulher. A mulher que junta coisas preciosas na sua sacola.

Ursula admite que contar estórias sem foco na ação, no Herói e no conflito não é uma tarefa fácil. Ela também sabe que o conflito é um elemento importante — nesse ponto ela se refere especificamente ao romance — mas acha absurdo reduzir a narrativa ao conflito.

Eu iria mais longe e diria que a forma natural, apropriada, e adequada do romance pode ser aquela de uma sacola, de uma bolsa. Um livro guarda palavras. Palavras guardam coisas. Carregam sentidos. Um romance é um patuá guardando coisas numa relação particular e poderosa umas com as outras e conosco. (p. 22)

Assim, contar estórias, em especial na forma de romances, para Ursula, seria carregar “um enorme saco pesado” com os mais variados elementos e personagens, criando para eles “redes intrincadamente tecidas que, quando laboriosamente desatadas” revelariam seus minúsculos segredos, como uma pedrinha azul ou um cronômetro contando o tempo de outro mundo.

Ursula usa a Teoria da Bolsa da evolução humana, cunhada por Elisabeth Fisher em seu livro A Criação da Mulher como base para a sua Teoria da Bolsa de Ficção. Elisabeth, autora de vários livros sobre feminismo e patriarcado, conjectura que o primeiro aparato da humanidade provavelmente foi um recipiente e nos ajuda a pensar que só o fato de continuarmos replicando uma estrutura narrativa em que prevalece a ação e o conflito esteja nos fazendo ignorar os outros lados da história.

A sociedade, a civilização de que estes teóricos estavam falando, era evidentemente a deles; eles a possuíam, a adoravam; eles eram humanos, inteiramente humanos, batendo, espetando, forçando, matando. Querendo ser humana também, procurei evidências de que o era; mas se isso significava fazer uma arma e usá-la para matar, então evidentemente eu era extremamente imperfeita como ser humano, ou não era sequer humana. (p. 20)

Já faz uns anos que estudo e reflito sobre escrita, talvez “querendo ser humana também”. O ensaio de Ursula, apesar de curto (ele ocupa menos de oito páginas) é poderoso em deixar aquela pulga atrás da orelha, sem falar nas fortes referências que evoca. Tenho poucas lembranças de textos assim, dos quais saí tão transformada, disposta a fazer releituras e mergulhos.

Nós todos precisamos de outras narrativas, outras formas de contar estórias. Já não dá mais pra viver replicando o Herói que vence, evolui, corre, prospera. Precisamos de estórias sobre quem fica, cuida, espera. Estórias sobre quem perde. Estórias sobre quem guarda. Estórias sobre quem pausa.

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