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Aritmomania: eu quero uma pra viver

MENOS DE 7 MINUTOS DE LEITURA

Esse tema me persegue desde o último 7 de setembro. Fiquei com ele na cabeça durante toda a semana (do latim septimana) seguinte ao feriado. Pretendia escrever sobre música DÓ RÉ MI FA SOL LÁ SI então pesquisei Chico Buarque homenageando Tom Jobim em Paratodos, canção que explora a redondilha maior (O meu pai era paulista / meu avô, pernambucano), construção poética mais famosa do nosso idioma, e que consiste em um verso heptassílabo (Minha terra tem palmeiras / onde canta o sabiá), 7 sílabas tônicas que agradam aos nossos ouvidos (eu te amo porque te amo / não precisas ser amante). Achei um tema dentro do tema. Não era de música que eu queria falar.

Talvez alguém mais se VERMELHO interesse em saber qual AZUL o motivo dessa nossa AMARELO obsessão com VERDE a porcaria do número 7 e talvez alguém ANIL saiba quais são VIOLETA as 7 cores arbitrárias do LARANJA arco-íris. Fiquei pensando que, em GULA um mundo com LUXÚRIA tantos pecados disponíveis IRA para cometer, PREGUIÇA porque cargas d’água INVEJA temos SOBERBA uma lista com AVAREZA apenas 7 capitais? E quais são eles, aliás?

E se você acha que é apenas coisa da minha cabeça, saiba que tem até uma pesquisa comprovando que o número em questão é o mais citado pelas pessoas como número da sorte. A especulação da vez é entender qual a mística por trás do número que parece ser o algarismo das listas por excelência: 7 maravilhas do mundo (não podiam ser doze ou dez?); 7 chacras (ao invés de oito ou cinco); 7 elementos do universo (sério que uma coisa que a gente chama de infinito tem só miseráveis sete elementos?); aposto que você se lembra qual é a SÉTIMA arte, mas é bem provável que não saiba qual a primeira. Coincidência ou plano setenário?

É 7UDO COISA DA 7UA CABEÇA

Essa mania deve ser um resquício do doutrinamento promovido pelas grandes religiões: o Deus cristão descansou no sétimo dia, e instaurou 7 sacramentos; são 7 os meios para a purificação no Budismo; islâmicos e judeus (ironicamente) compartilham a crença no sétimo céu como paraíso; na Índia, o Hinduísmo considera 7 rios sagrados como locais purificadores. Pode, também, ser um rescaldo de considerações ocultistas: o pai (teórico) da numerologia, o grego Pitágoras, pirava com o sete, considerado por ele como o número da perfeição, símbolo da totalidade do universo. Mais recentemente, uma corrente chamada Antroposofia, formulada por Rudolf Steiner, vê a extensão da vida humana dividida em setênios (que dúvida!): ciclos de sete anos ao longo dos quais se pode chegar ao conhecimento sobre si.

Sim, você que manja de horóscopo talvez tenha pensado no Retorno de Saturno – esse momento mágico em que a juventude começa a escapar pelos dedos e a maturidade vem – que ocorre (pausa dramática) no quarto ciclo de SETE anos da vida de alguém. Essa heptatônica obsessão pode decorrer simplesmente para acompanhar as fases da lua, que duram sete dias (e talvez tudo tenha começado quando nossos antepassados começaram a se guiar pelo céu noturno).

De qualquer forma, a humanidade parece obcecada com a assimetria simétrica do algarismo sete. E se você já pensou em uma enorme quantidade de referências da cultura pop ao número 7, você pode pular a listagem a seguir e ir direto ao último parágrafo (sim, esse texto foi dividido em 7 partes), abram-se interrogações, porque agora eu vou perguntar quantos anões convivem com a Branca de Neve; quantas são as esferas do Dragão; quantos são os anos de azar ao quebrar um prosaico espelho; quantas vidas (diz-se que) tem um gato; por que raios dizemos descobridor dos sete mares; por que o carnaval antecede a Páscoa em sete domingos; por que a saga Harry Potter (cujo protagonista nasceu no mês de julho), tem 7 livros, sendo o primeiro lançado em 1997 e o último em 2007; por que diz-se que a morte nos leva a sete palmos; por que a simpatia famosa leva as pessoas a pularem sete ondas no mar; por que o agente secreto mais famoso da sétima arte é chamado de 007; o que significa dizer que tal pessoa pintou o sete, por que setembro é o nono mês e não o sétimo (?). Algumas dessas perguntas são facilmente respondidas; outras seguirão em perene segredo – guardados às sete chaves.

Ps: esse texto é inspirado em uma passagem do romance “Nossa Senhora D’Aqui”, de Luci Colli, que aqui reproduzo: “Cruzincredo! Vejo: por Destino o número grudou no vosso miolo e de lá não sai enquanto não se fizer trabalho pra enviar ele pro lugar certo.” O trecho em questão está na página 67.     

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