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De diários e cadernos goiabada se faz a escrita  

por Patricia Dias

Na infância tive diários de formatos variados, geralmente acompanhados de cadeado e chave — recurso fundamental para uma menina com dois irmãos curiosos. Zelando pelos meus segredos, escondia tão bem as chaves a ponto de não mais encontrá-las, colocando um fim precoce aos meus registros.

Minha produção diarística de fato (dos quatorze aos dezessete anos) foi marcada pelas agendas — moda nos anos 1990. Uma adolescência registrada em detalhes — com direito a uma boa dose de drama e crise existencial — e documentada com toda sorte de vestígios (ingressos, cartões, papel de bala). Já na faculdade, em um surto de desapego e, talvez, demarcando a entrada na idade adulta, joguei todas fora. Depois desse ímpeto destrutivo, sobrou arrependimento, e também a sensação de apagamento da minha história e da minha identidade.

Muito comum no passado, inclusive como ferramenta importante na formação dos escritores, a prática dos diários acabou perdendo o glamour e caindo em desuso — mesmo com inúmeros estudos relatando os benefícios, como por exemplo autoconhecimento e subjetivação.

Os diários, como registros autobiográficos fazem parte das escritas de si, estudadas por Michel Foucault. Resgatando a célebre frase de Sócrates em sua totalidade “Conhece-te a ti mesmo” e “conhecerá o Universo”, Foucault vai abordar a relação entre conhecimento e poder. A escrita é uma ferramenta importante para organizar os nossos pensamentos e lidar com as tensões. Ao escrever, temos a possibilidade de pensar sobre os acontecimentos — fora da agitação da vida — despertando uma maior consciência. A cada entrada de diário, faz-se uma triagem dos fatos a serem relatados, e cria-se uma narrativa — um exercício de linguagem poderoso que nomeia emoções e sentimentos, fixa o tempo presente e constrói uma memória em papel.  Inscrever-se no texto (e na vida) é dizer-se de si mesmo, é ocupar um lugar de poder, e não ser subjugado por discursos outros.

Talvez a pouca adesão aos diários esteja ligada a uma versão deturpada da prática, muito associada aos infantilizados “caderninhos com cadeado” e a uma escrita feminina. A literatura infanto-juvenil também se encarregou de desgastar a imagem desse gênero de escrita com o excesso de diários ficcionais, vide Diário de um banana e similares.  

É bem verdade que a escrita de si foi exercida predominantemente por mulheres, pois recolhidas ao universo doméstico, o que lhes restava era a escrita de diários, cartas e dos cadernos goiabada (sim, você leu certo), que eram fragmentos de escrita em meio a listas de compras e registros de receitas.

A escritora Lygia Fagundes Telles, no livro A disciplina do Amor (de 1980), relembra a existência desses cadernos, que não eram os diários das mocinhas-solteiras-sonhadoras e também não eram apenas cadernos de receitas. O controle dos mantimentos da despensa e o modo de fazer a goiabada dividiam espaço com reflexões, desabafos e poemas. Uma forma de fazer nascer uma escrita entre as brechas das obrigações e cuidados com a casa e a família — o que nos lembra que a escrita para as mulheres sempre foi resistência.  

Recentemente, durante a pandemia, os diários voltaram a chamar a atenção, inclusive muitos psicólogos os indicaram aos seus pacientes durante o período de isolamento. Surgiram muitos diários em formatos de fotos e textos nas redes sociais, mas o tradicional modelo analógico também teve seus dias de glória. Alguns desses diários foram transformados em livros.

Os nomes mudam — caderno, diário, moleskine, journal, bullet journal, bujo — mas o registro analógico tem seu público fiel. Seja como um refúgio ou passatempo  para exercitar a criatividade, o desejo  de inscrever-se no tempo e espaço permanece.  

Se por um lado a escrita diarística enfrenta altos e baixos, a leitura de diários alheios sempre atraiu leitores. A experiência de examinar a vida do outro pelo buraco da fechadura fascina um rol de leitores (e me incluo nesse grupo). Do clássico O diário de Anne Frank — provavelmente o mais conhecido — aos diários de grandes escritores como Kafka, Virginia Woolf,  Katherine Mansfield, Sylvia Plath , Susan Sontag entre outros .

No caso dos escritores, o diário é quase uma ferramenta de trabalho, espaço de experimentações com a linguagem, servindo muitas vezes de gênese para outras escrituras. Ao mesmo tempo que funciona como memória da produção literária, divide espaço com as trivialidades da vida cotidiana. Para os leitores mais curiosos, é a oportunidade de conhecer novas facetas  de grandes personalidades.

Como adepta da escrita de si — na vida e ministrando oficinas — não posso encerrar essa coluna sem dar meu conselho não-solicitado-mas-cheio-de boa-intenção: escreva um diário. Não precisa seguir o clássico: “Querido diário”, apenas registre ideias soltas, pensamentos, sentimentos, sonhos, planos… Outra dica é começar criando um caderno de inspiração para reunir referências — colagens, desenhos, frases inspiradoras, trechos de livros, palavras soltas, ideias para textos e lembranças.   

Em um texto recente, o premiado autor Jeferson Tenório defende a prática lindamente: “Um diário sobrevive à própria morte. Alonga nossa existência e nos dá uma ideia mais clara do quanto existir é raro”.


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