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em pleno-vazio

talvez você conheça o vazio que fica quando grandes poderes & grandes responsabilidades se esvaem, quando não há mensagens pra responder nem urgências sobre as quais pensar, quando tanto faz o que você faça, não faz diferença. talvez você conheça o vazio que é 

descansar

ou ficar gripada ou ficar de molho ou só desacelerar, os sonhados ralentandos que nos prometemos quando estamos naquela corrida, nos prometemos colocar em dia tudo que ficou pra trás, em resolver aquelas pendências miúdas que vamos deixando, deixando, sem tempo pra nada e quando há tempo

vazio.

de repente um dia foi embora. e outro também e mais outro, e cansamos de descansar porque descansar cansa mesmo — descansar pelo mero descanso, desacostumamos — porque viciamos na corrida, porque pedimos férias mas no fundo queremos nos preencher todinhos até estourar.

novidades, novidades, novidades, me lancem novidades, no irresoluto pro amanhã, no looping da ocupação, me preencham de mundo para que eu me sinta viva; por favor, não me deixem só

comigo

no vazio da festa que finda, na fenda daquilo que foi, no festim esfarelado que hoje é fofoca que hoje é finesse. o vazio não é ruim. o vazio não é bom. o vazio não é nada. o vazio é como uma caixa de quinquilharias largada num canto, com a qual um dia a gente vai ter que lidar. o vazio é olhar uma parede e identificar que aquilo

é uma parede. é olhar um relógio e identificar que aquilo é um relógio. é olhar cada objeto em reconhecimento de sua existência, sem atribuir-lhe utilidade imediata — porque o vazio pode ser o ápice da não-necessidade e a gente se permite olhar, olhar sem esperar 

nada em troca. mas (alguém levanta a mão na plateia) para preencher o vazio basta

abrir uma nova aba pesquisar sobre uma nova banalidade pegar um novo livro escolher um novo vídeo randomizar uma nova música baixar um novo jogo falar um novo comando puxar um novo assunto sair numa nova rua começar um novo curso achar um novo bando comer um novo doce comprar um novo enfeite mudar

uma nova planta.

mas todo vazio, preenche.

(ser preenchido de vazio, já se deixou?)

tem tanta dúvida tanta explicação, tanta forma de se distrair tanta forma de se engajar, tem tanto jeito de fazer tem tanto jeito de destruir, tanta gente precisando de ajuda tanto bicho tanta vida, tem tanto livro tanta história tanta besteira, tanto, tanto de tudo que 

estar vazio

é crime. é luxo. é bexiga murcha enquanto todos estão plenos em suas corridas contra um tempo que não existe. mas por aqui não tenho dúvida de que estar vazio é estar por inteiro, porque estou aqui 

vazia e incomodada (o que é bom, porque o incômodo é um sinal de 

não estar alheio) mas invariavelmente estou, e sinto cada parte do meu corpo e tenho consciência de cada um dos meus movimentos. em pleno-vazio sei-me mais do que se estivesse cheio

e poderia viver em fugas de mim, dando voltas na rebimboca da inconstância, sempre cheia, sempre cheia, declarando uma existência confinada em afazeres ininterruptos

só na correria, só no full time

arguições que a gente carrega sorrindo, como troféus de uma vida bem-sucedida, como se isso fosse uma vida bem-sucedida ao invés de continuar vazio e 

pegar um potinho de tinta guache só pra descobrir que guache também tem validade e vence em maio do ano que vem e voltar

com o potinho 

na prateleira.