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Entre o Nobel e a ABL: o zeitgest

O dia cinco de outubro de 2023 trouxe um embate para este escriba-autoproclamado-conhecedor das (L)literaturas todas (aquela com minúscula e a outra, em maiúscula, além da singular e da plural). Duas notícias separadas por (ao menos) um oceano pareciam falar da mesma coisa usando meios distintos. Primeiro vetor do embate: a gélida academia sueca concedeu o Nobel de Literatura ao norueguês Jon Fosse, cujo nome – para além da vocação inquestionável ao trocadilho fácil na língua de Camões – eu desconhecia cabalmente. Soube depois que há um ou dois livros traduzidos ao português do agora nobelizado dramaturgo (e que, como era de se esperar, deu-se uma corrida entre as editoras brasileiras para traduzir suas obras). Não fosse isso e era menos, diria Leminski.

Segundo vetor do choque: a ABL (que há alguns meses ignorou Maurício de Sousa), acaba de nomear Ailton Krenak o mais novo imortal das Letras tupiniquins. Por conhecer a potência de sua obra, indissociável de sua própria biografia, fiquei feliz ao saber da comenda ao notório ambientalista e pensador – primeiro indígena a ingressar na Academia – mas ao mesmo tempo me bateu uma incerteza: a ABL, historicamente excludente e engessada, merece se escorar na simbólica imagem de Krenak? Na modernidade tardia em que tradições se despedaçam, são as premiações que dão destaque às pessoas ou elas que ainda conferem relevância aos selos criados há mais de século? Pronto: o Embate-Existencial-de-Relevância-Questionável-e-Consequências-Limitadíssimas estava instaurado…

Não fosse tanto e era quase

Ok, Nobel e ABL são academias e, como tais, estão envoltas em disputas políticas. Desde o início deste século, a tentativa de promover a representatividade é comovente (risos), resultando em ineditismos que, ao invés de celebrar pioneirismos, ressaltam exclusões seculares. É um tal de primeira-mulher isso, primeiro-homem-negro aquilo, primeira-mulher-trans etc. Você e eu conhecemos o discurso. Vamos aos fatos: Jon Fosse escreve em nynorsk, uma variante minoritária da língua norueguesa e, portanto, dá destaque a essa reunião de dialetos marcada pela oralidade. Ao receber o Nobel, Jon declarou que, em última análise, “devia o prêmio ao próprio idioma”.

Quando a questão é colocada assim fica mais fácil aproximar as duas premiações de cinco de outubro: Ailton Krenak não escreve seus livros da maneira a que as convenções literárias nos ensinaram, mas transmite suas narrativas através da voz. Seus livros, já traduzidos para treze países, são transcrições realizadas a partir de suas entrevistas, palestras e discursos, conforme a tradição indígena da… oralidade. Nos dois casos, entre os tão diferentes Krenak e Fosse, traços muito claros de resistência.  

Para além da compensação financeira (que, no caso do Nobel, está na casa dos milhões de reais) e da visibilidade proporcionada dentro dos respectivos círculos, é possível classificar entre melhor e pior algo tão abstrato quanto a literatura (leia-se: qualquer manifestação artística)? Nem precisa de especulação para afirmar que: não. Premiações ou eleições do gênero nunca se tratam (apenas) de qualidade, e demoram muito a refletir o zeitgest, a tendência (irreversível?) à diversidade.

Se as Academias seguem excludentes e desconectadas da realidade, a produção literária contemporânea responde cada vez mais aos anseios por representatividade. Embora muito longe do ideal (o que seria ideal?), o mercado editorial é mais democrático – isso para não falar da produção de base em oficinas de escrita, editoras engajadas, autopublicação, programas de incentivo à cultura, pesquisas sobre a arte popular etc.

Maior premiação da literatura brasileira, o Prêmio Jabuti, depois de se manter elitista por décadas, nos últimos anos tornou-se mais democrático (a passos de tartaruga, diga-se). O resultado dessa abertura é uma aproximação, ainda tímida, entre a torre de marfim dos literatos, o mercado editorial e a produção independente.

Indiferente a tudo isso, ela, a (L)literatura segue em seu processo de pluralidade e evolução, (re)escrita pelo traço, pela vida e pela voz de quem sempre encontra histórias que precisam ser contadas. É ela – também chamada de Resistência – que, afinal, aproxima as raízes nórdicas reunidas na prosa de Jon Fosse e a palavra insurgente proferida por Ailton Krenak como coisa única, ainda que completamente distinta.

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