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Provisório Especulativo

Olhos que ouvem imagens

O senso comum diz que uma imagem vale mais do que mil palavras.  Pois: ouvir vale mais do que mil imagens. E não sou eu que digo, mas um estudo de William Glasser, que pesquisou a assimilação de estímulos pelo cérebro humano – e concluiu que ouvir é duas vezes mais efetivo no processo de aprendizagem. A audição humana, se estimulada propriamente, pode “enganar” a visão – literalmente fazer nosso cérebro enxergar coisas. Este estudo conduzido pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia testou participantes da seguinte maneira: sons audíveis e flashes em uma tela, simultaneamente. Quando apenas um flash apareceu, e junto a ele múltiplos sons foram gerados, participantes relataram ter visto na tela mais de um flash.

Ok, isso vale como curiosidade: sei que a visão domina amplamente a maneira como percebemos o mundo. O Menin já falou a respeito da supremacia das legendas em vídeos – 80% dos espectadores têm maior probabilidade de assistir um vídeo até o fim se tiver legendas, especialmente as gerações mais recentes. Engajamento à parte, a questão que proponho aqui é pensar o potencial inexplorado da percepção sonora humana, especialmente quanto à ficção. Estamos assistindo vídeos legendados em nossa própria língua (e isso diz muito sobre nossa relação com as redes sociais), mas dados indicam que cerca de 70% dos brasileiros preferem filmes dublados (gerações inteiras formadas por Herbert Richers!). Será que o futuro nos reserva uma enxurrada de podcasts gringos dublados?

Decoração sonora

Tomara que não! Pessoalmente, prefiro as legendas. Valorizo o trabalho dos dubladores, especialmente em animações, mas entendo que a interpretação original carrega nuances que a dublagem não reproduz. Mas isso é apenas minha opinião. A invasão de podcasts dublados é especulação – aliás, é o que mais faço neste espaço.

A realidade já vê caminhos alternativos. Desde 2019, o Spotify investe em produções ficcionais, desde audiobooks até podcasts investigativos, como A mulher da casa abandonada, que causou um tremendo burburinho em 2022. Agora, o Spotify acaba de lançar a série França e o Labirinto, produzida pelo Jovem Nerd e com Selton Melo no papel principal. Gravada em áudio binaural (que eles chamam ludicamente de áudio 3D) a série impressiona pelo potencial de imersão. Ao longo dos 13 episódios, consegue tornar crível a jornada do detetive cego que tem a audição aguçadíssima – percepção da qual o ouvinte compartilha com riqueza de detalhes. O trabalho de sonoplastia da série surpreende pela capacidade de reproduzir sons específicos e, especialmente, pelo modo como utiliza os silêncios para compor a narrativa. Lá nos anos 1940 a Rádio Nacional já era referência no Brasil, e os sonoplastas eram apelidados de decoradores sonoros.

E se alguém já explicou para aquele tiozão que podcast é nome gringo pra rádio – digo que série-em-áudio é radionovela 2.0. Ah, a evolução tecnológica…

Um mundo de imaginasom

A exemplo da era de ouro das radionovelas, em França e o Labirinto a interpretação dos dubladores é muito bem conduzida, e torna os diálogos intensos e verdadeiros. Por mais que enredo e argumento sigam clichês do gênero detetivesco, há mérito dos roteiristas em criar verossimilhança a ponto do ouvinte suspender a visão por alguns minutos e redirecionar sua calejada percepção tendenciosa pró-visão. Eu, acostumado a ouvir música com fones de ouvido e, simultaneamente, escrever mensagens de texto ou navegar em alguma rede social, ouvi os episódios da spotifynovela com atenção extrema, porque é tarefa impossível seguir o fio narrativo enquanto se envia um email ou se consulta o clima do dia seguinte.

A ficção sonora (por assim dizer) exige um envolvimento diferente. E pode ter resultados poderosíssimos, oferecendo ao ouvinte papel determinante no exercício da imaginação. Sem a carga imagética do audiovisual, e sem demandar a interpretação que a leitura exige, o áudio sugere sem impor. Exemplo máximo: em 1938, o jovem diretor Orson Welles – que anos depois filmaria o clássico “Cidadão Kane” – adaptou Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, como se fosse um boletim jornalístico em linguagem radiofônica. O problema é que o livro narra uma invasão alienígena, e o diretor buscou tamanho realismo (inclusive quanto à chegada dos extraterrestres), que boa parte dos ouvintes tomou a obra como real. Resultado: milhões de pessoas em choque, linhas telefônicas sobrecarregadas, congestionamentos e aglomerações pelas ruas de grandes cidades. Um dos maiores casos de fake news da história – que rendeu a Welles status de gênio.

Essa transmissão é considerada por muitos como o programa que mais marcou a história da mídia no século XX. Tudo sem compartilhar nenhuma imagem nem inserir nenhuma legenda. Um conjunto de sons bem elaborados – e a imaginação fez milhões verem coisas no céu.

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