Há mais ou menos sete anos comecei a ministrar oficinas e publicar alguns conteúdos sobre escrita criativa na internet. Nesse período, obviamente passei por transformações, algumas inclusive influenciadas por alunos e leitores, sobre o que significava, para mim, se colocar nessa posição de professora. Minha formação passa longe da educação — sou bacharel em comunicação —, então meu interesse pelo ensino veio do mais sincero desejo em transmitir alguns conhecimentos para que as pessoas pudessem trilhar seus caminhos artísticos passando por menos perrengues do que eu.
Claro, como toda boa motivação, havia um je ne sais quoi de ilusório.
Depois de uns quatro anos de estrada professoral, comecei a sentir, não sem surpresa, o conflito entre a atração pura pelo ensino e a transitoriedade (do passar do tempo somado ao aprimoramento da bagagem) provoca — ou seja, passei a questionar cada uma das coisas que ensinava.
Aos poucos, parei de escrever sobre escrita — e desculpas não faltaram: falta de tempo, de retorno, de incentivo. Planejei migrar a escrita da internet para livros, mas foi em vão. Sempre que me sentava para escrever sobre algo relacionado ao ensino, um desânimo tomava conta de mim. Síndrome da impostora? Preguiça? Cansaço?
Foi então que passei a duvidar do que eu falava, no momento em que eu falava: primeiro durante as aulas, depois em qualquer situação de exposição social. Podia ser um café, com apenas uma pessoa, mas se eu sentisse que a conversa pendia para escrita e ensino, vinha a insegurança. Passei a sair das minhas aulas com a certeza de que estava enganando as pessoas e que não deveria estar ocupando aquela posição.
Parei de escrever sobre escrita. Parei de ler sobre escrita. Quando o Menin me indicava ou mesmo me dava de presente um livro sobre escrita, eu tentava disfarçar o incômodo.
No último ano, pouco escrevi além do roteiro de Clair de Luna e a dissertação. Você pode achar que estou me cobrando demais — afinal, escrever uma dissertação dá trabalho mesmo —, mas a questão é que não parei de escrever por falta de tempo ou cansaço, mas por desânimo com a escrita. Nesse período, escrevi oito Cismas, e em apenas três delas falo sobre a relação com a escrita. Na Cisma da edição 175 do Lambrequim, inclusive, comento que estou enfrentando um bloqueio criativo — o que é apenas parte da verdade. O fato é que o que enfrentei foi o combo autoconfiança de menos + autocrítica demais.
Questionar o que se escreve enquanto se escreve é extremamente cruel. Eu li outras Cismas que escrevi ano passado (essa e essa) e, falando a real, achei ambas muito boas — mas lembro bem do quanto me torturei para escrevê-las. O mesmo aconteceu com as aulas e as publicações: não importava quanto feedback positivo eu recebesse, sempre achava algum motivo (interno e sinistro) para apontar defeitos. Com uma autocrítica elevada assim, não há como sentir satisfação com as conquistas, muito menos durante o processo.
Como eu saí disso?, você pergunta. Primeiro, muita terapia e exercícios físicos regulares. Segundo, ainda estou aprendendo a silenciar a sensora dentro da minha cabeça para aproveitar o processo. Terceiro, planejamento e ação.
Como eu disse, afirmar que estou enfrentando um bloqueio criativo é apenas uma meia-verdade — até porque tive e continuo tendo muitas ideias e projetos fluindo dentro da cabeça. O que eu não estava era encontrando o espaço psicológico para fazer — e então, quando o prazo apertava, saia fazendo tudo em cima da hora, de qualquer jeito, saísse como saísse.
No dia 06 de janeiro de 2025, listei todos os projetos nos quais preciso e quero trabalhar ao longo do ano, separei eles mês a mês, e comecei a escrever cada uma das ações que precisava executar para fazer tudo aquilo acontecer. Não vou mentir: me bateu uma ansiedade enorme. Comecei a me questionar se seria capaz de cumprir o volume de tarefas naqueles prazos. Mesmo assim, iniciei os trabalhos com a primeira missão do ano: finalizar Clair de Luna.
Em poucas semanas, aprendi o que muitos falam: planejamento não é só sobre cumprir prazos, mas também sobre se preparar para imprevistos e contratempos. É sobre antever e se comprometer em realizar o melhor trabalho dentro do tempo disponível.
Clair de Luna é um quadrinho muito importante pra mim, já que é uma homenagem à companheira canina mais especial que tive, a Luna. Por isso, eu queria que a publicação impressa fosse perfeita, pensada nos mínimos detalhes. Graças ao planejamento, tive tempo disponível para revisar e ajustar tudo o que pude e mandei para a gráfica a melhor versão possível da HQ. Quando as caixas de livro chegaram da gráfica (uma semana antes do lançamento, um recorde de organização para mim) e eu tive pela primeira vez o livro em mãos, chorei de felicidade, com o peito cheio da mais pura satisfação por ter dado o meu melhor.
Há dois meses organizando as tarefas e trocando o imediatismo pelo médio prazo, o espaço ocupado pela ansiedade tem sido liberado para a leveza e a construção de novas ideias. O prazer de escrever voltou e as dúvidas diminuíram. Tenho me cobrado menos, porque sei que os afazeres são planejados com antecedência. Alguns dias, é claro, são melhores e outros piores, mas tenho reconhecido as variações como parte do processo.
Durante as aulas ou em situações de contato social, inclusive, tenho duvidado menos e acreditado mais. E se eu cometer alguma gafe, bem, todo mundo comete, não é?