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Qual é o problema em me sentir bem (escrevendo)?

Desde que lancei a HQ A Samurai, há pouco mais de cinco anos, me considero uma escritora profissional. Olhando hoje, de maneira objetiva, é uma caminhada curta comparada à de escritores que admiro e que tenho como ideais. No entanto, quando penso em tudo que aprendi e nas experiências acumuladas, sem dúvida esses foram os anos mais proveitosos da minha vida.

Para chegar aqui e me assumir como escritora, transformei meu estilo de vida e elevei os níveis de cobrança interna — e é aqui que quero chegar. Sem querer, por mais que eu estivesse galgando uma área menos competitiva (afinal, a leitura de um texto não impossibilita a outra), segui a cartilha da autocobrança com o restante do mundo, e me impus uma série de exigências que só me deprimiram, me isolaram e me impossibilitaram de criar.

Em seu livro Romancista como vocação, o escritor Haruki Murakami lançou a seguinte pergunta: qual é o problema no fato de eu me sentir bem? Como acontece com perguntas poderosas com as quais esbarramos na hora certa, essa me atingiu em cheio, revelando óbvio: eu não estava me sentindo bem escrevendo — e não sabia o porquê.

Apesar de nunca ter produzido tanto quanto em 2021, eu não estava me sentindo bem ao escrever. Com avançar dos meses, escrever tornou-se uma exigência, um peso que eu já não aguentava mais carregar. Questionei (escrevendo, é claro) se as escolhas que eu havia feito ao longo da vida foram as melhores; se não era um preciosismo infantil (desculpe a ironia) perseguir com tanto afinco um sonho de infância.

No ensaio Por que escrevo o escritor George Orwell comenta que a maioria das pessoas, após os 30 anos, costuma abandonar o sentimento de que são indivíduos e passam a viver para os outros, muitas vezes mergulhados em rotinas enfadonhas. No meu caso, iniciei minha vida de escritora profissional a partir dos 30, o que talvez demonstre que, apesar de me importar com as pessoas ao meu redor e precisar do apoio delas, sou uma egoísta por essência. O egoísmo, aliás, é um tema que tanto Orwell quanto Murakami abordam em suas reflexões sobre a escrita — este, inclusive, se declarando uma pessoa autocentrada, um título bem mais digno do que “egoísta”.

No entanto, me reconhecer como escritora e viver mais em função desse ofício autocentrado do que em função dos outros exige o que Murakami chama em seu livro de “competência especial”, uma espécie de resiliência 2.0 que mantém o escritor trabalhando em equilíbrio apesar de todos os problemas (relacionados ou não a escrita) que surgirem. Ele chega a afirmar que o escritor — mais especificamente, o romancista — não pode ser uma pessoa muito inteligente; caso contrário será incapaz de se submeter às longas sessões de escrita repetidas vezes pelo resto da vida.

Lembro-me de uma colega de turma do ensino médio (hoje doutorada em letras) que certa vez me disse que eu não conseguiria ser escritora porque não me dedicava a uma mesma atividade por muito tempo. Com tristeza, concordo com ela. Dizer “hoje vou passar x horas escrevendo, sem nenhuma distração” e cumprir o combinado não é dom nem inspiração, mas treino. Fechar-se em um cômodo, desligar a internet e enfileirar palavras uma após a outra para montar histórias e organizar ideias não tem nada a ver com talento. Escrever é um trabalho maçante, repetitivo e, na maioria das vezes, mal remunerado. Portanto, se não for ao menos divertido, qual é o sentido em continuar?

Como eu disse, escrever tornou-se um peso para mim, uma atividade obrigatória como um cliente chato cobrando o prazo de um freela pelo WhatsApp às 6 horas da manhã — com a única diferença de que o cliente era eu mesma. O desejo por reconhecimento, o acúmulo de leituras, a imagem que eu tenho de “uma boa escritora”, a forma como estava conduzindo o meu processo criativo e a mágoa acumulada pelas rejeições em concursos literários elevaram meu nível de exigência e me tornaram mais técnica, acabando com um dos elementos que mais prezo no processo criativo: a fruição.

Quando parei de me divertir escrevendo, deixei de sentir a escrita dentro de mim. Ao transformar o processo em um ato intelectual, deixei que a editora em mim se sobressaísse da escritora e escolhesse cada uma das palavras com minúcia desde a primeira versão.

Foi quando concluí que, assim como Clarice Lispector, preciso manter a escritora amadora livre e atuante.

Na infância, escrevia a lápis, em cadernos, um hábito que mantive durante toda a juventude. Em algum momento, pela praticidade, passei a escrever textos racionais direto no computador, mas mantive escrita de textos emocionais no papel. No entanto, ao ver pilhas e mais pilhas de cadernos se acumulando sem que eu tivesse tempo para editá-los, decidi escrever apenas no computador. Foi aí que as coisas começaram a ficar estranhas.

Sem perceber, negligenciei espontaneidade da minha escrita e, mesmo avançando na técnica, deixei de apreciar tanto o processo quanto o que eu estava produzindo.

Para um autor best-seller mundial e com prêmios literários importantes, Haruki Murakami se considera um outsider do meio literário. Antes de ser artista, ele afirma, é um escritor que se coloca o desafio de escrever, para os seus leitores, um romance após o outro e se diverte no processo. Ele acorda, pega uma xícara de café e se senta à mesa para escrever de 4 a 5 horas. Escreve porque quer e quando quer. Escrever, para ele, é como o prolongamento de um sonho.

A escrita plena, para mim, é um ato físico. É o roc roc do grafite no papel; é velocidade da minha mão competindo com a do pensamento; é o cheiro de um caderno novo; é ver meus textos se materializando onde antes havia apenas linhas vazias; é poder reler aleatoriamente algo que escrevi sem antes desvendar o conteúdo no nome do arquivo; é não ter backspace nem borracha e rabiscar palavras, colocar asteriscos e flechas… Ou seja, escrever é deixar fluir.

Talvez você consiga deixar fluir no computador, no celular, na máquina de escrever ou até na digitação por voz — e isso é ótimo. (Eu mesma consigo me libertar usando essas ferramentas, mas o meu custo mental é muito maior, tornando o trabalho pesado). O que você não pode é permitir que cobranças ou o desejo de fazer como os outros se transformem em um bloqueio criativo e acabem com a sua diversão ao escrever.

No fim, não preciso de ideias, planos mirabolantes nem de motivos para escrever; preciso mesmo é de uma lapiseira e um caderno para que todo o resto, como agora, aconteça.

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