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Que quer dizer Politon? 

Que quer dizer Politon?

Quando escrevemos um texto, nunca sabemos se ele chegará a ser lido. Um texto sobre uma personalidade quase desconhecida ou sobre um instrumento musical criado lá nos idos da primeira metade do século passado naquela ainda provinciana capital do Paraná, então, nem vos conto.

Hoje, enquanto você lê este texto, já se passaram três anos desde a primeira e a segunda publicações que fizemos a respeito de José Nogueira dos Santos e sobre sua criação, o Politon. À época, nossa coluna Artistas de Antes & Sempre estava, devido à pandemia, completamente impossibilitada de realizar pesquisas mais aprofundadas nos acervos públicos, consultar pessoas e buscar mais informações.

Só que, de lá para cá, as coisas mudaram, e muito. Para ser bem sincero, embora houvesse interesse em continuar a desenvolver a pesquisa, como houve pouca ou quase nenhuma repercussão, além do fato de a própria história ir se perdendo em nossa memória, acabei não dando continuidade à pesquisa sobre José Nogueira dos Santos e seu Politon.

Até que hoje, 11 de junho de 2024, voltando da Biblioteca Pública do Paraná (de outra pesquisa), recebemos em nosso WhatsApp uma mensagem:

“Boa tarde! Mensagem para o Sr. Cássio Menin, relativa aos artigos publicados em junho de 2021 sobre um instrumento musical denominado Politon. Espero que interesse. Meu nome é José Claudemir Vieira, historiador. Morei 30 anos em Curitiba. Obrigado, abraços.”

Os olhos brilham; o coração, enquanto palpita, sorri. Alguém leu o texto! Só que, além de ler o texto, José Claudemir Vieira nos enviou um arquivo em PDF. Esse arquivo é nada mais, nada menos que um pequeno livro publicado pelo inventor do Politon. Um texto que relata todo o seu empreendimento com o instrumento e que trazemos aqui para partilhar com você. Mas antes de começar, caso você não tenha lido os textos anteriores, faça isso; esses textos poderão te auxiliar a compreender melhor o texto de hoje.

Que quer dizer Politon? 

Esse é o título do livro digitalizado e enviado para nós. Um achado, uma obra raríssima.

A primeira constatação é que o livro está muito bem preservado, com pequenas manchas na capa, mas no seu interior, elas são praticamente ausentes. A segunda constatação é a ausência do nome de uma editora, imprensa ou tipografia que nos dê indícios de por quem o livro foi publicado. José Nogueira dos Santos publicou esse livro sozinho?

Dada minha pequena experiência sobre publicações, sou levado a crer que sim, trata-se de um livro publicado de forma independente, quando ele já estava com 82 anos de idade.

A folha de rosto é idêntica à capa, seu verso em branco e, na página seguinte, uma foto sem data de José Nogueira dos Santos. Não me arrisco a dizer a idade com que ele tirou essa foto, por isso a reproduzo aqui:

Após três páginas em branco, o texto inicia do lado direito do livro. Um relato, nas palavras do próprio inventor, sobre sua obra.

E o que ele nos conta é absolutamente incrível. José buscava uma forma de contribuir para a “arte musical” de modo a “ampliar o registro dos sons”. Em suas palavras:

“[…]considerando que só ao canto é dado o poder de emitir sons intermediários entre tons e semitons, toma-lo por base para aplicação dessa faculdade a um instrumento melódico” (p.5).

Para os mais aficionados em música, lembre-se que estamos em Curitiba, no início da segunda metade do século XX, e que é bem possível que José não tivesse tido contato algum com a cultura oriental, e que, embora fosse um entusiasta da música, a microtonalidade não fazia (não faz até hoje) parte do léxico musical comum praticado no Brasil.

Voltando ao livro, José nos diz:

“Cheguei à conclusão que, somente dando certas dimensões à entrada e expansão do ar no bocal e, regulando, com movimentos labiais os sons a emitir, de acordo com a circunferência de cada bocal, poder-se-ia libertar as tonalidades em busca da escala absoluta” (p.5).

E ele conseguiu: “Com a dificuldade, que era de esperar, cheguei à almejada ESCALA ABSOLUTA!” (p.6).

Embora eu não tenha dito, vocês já devem ter percebido que eu estou mantendo as citações tal como foram feitas à época, ou seja, sem atualizações e ou possíveis correções. 

Embora não tenha colocado a data exata de tal feito, José nos diz que, conforme já salientamos nos textos anteriores, é em 1937 que o instrumento musical é executado por outrem, no caso o “Snr. Pery Machado”. 

Continuando seu relato, algo que não encontramos nas pesquisa anteriores é o fato de que o instrumento foi levado em 28 de janeiro de 1942, ao exame do Quartel General da 5ª Região. O qual segue abaixo a apreciação.

Aqui dois parênteses, ou melhor, uma curiosidade sobre o Quartel General da 5ª Região. 

Em 1886, o Palacete Wolf foi alugado para o Corpo Policial da Província e, durante a Revolução Federalista, transformou-se no Quartel General do 5º Distrito do Exército. Após a Revolução Federalista, no fim do século XIX, o prédio que abrigava a Impressora Paranaense, fundada pelo Barão do Serro Azul, passou a ser ocupado pelo Exército, transformando-se no quartel da 5ª Região Militar. Em 1930, o edifício foi reformado e ampliado para melhor atender às necessidades militares. Atualmente esse lugar é o Cine Passeio. 

Quem sabe um dia não escrevemos sobre a Impressora Paranaense, mas por hoje, basta-nos saber que ela foi fundada em 1853 pelo jornalista Cândido Martins Lopes. Foi a primeira gráfica a operar no Paraná. Lopes trouxe a primeira prensa para Curitiba e, em 1854, lançou o jornal “O Dezenove de Dezembro”, nomeado em homenagem à emancipação da Província do Paraná. A gráfica, chamada “Typographia Paranaense”, tornou-se uma das mais importantes do Brasil.

De volta à história do Politon e de seu inventor, estamos nos anos 40 do século passado, anos em que o mundo viveu o terror da guerra e descobriu-se capaz de destruir o mundo. O documento, reproduzido acima, acompanhado de uma das versões do Politon, o de tipo “Clarim”, foi, segundo José, levado ao Ministério da Guerra, no Rio de Janeiro, e “segundo parece, ignorado ou perdido, durante o período ativo da segunda guerra mundial” (p.8).

Para que possamos verificar algumas dessas novas informações e fazer uma leitura mais detalhada do texto, continuaremos a história de José Nogueira dos Santos e do Politon na próxima semana. Entretanto, não podemos encerrar este texto sem agradecer com essas humildes palavras ao Sr. José Claudemir Vieira, que, com sua profunda gentileza, nos enviou digitalizado este que pode ser, quem sabe, o único ou um dos únicos livros que sobreviveram ao tempo. Muitíssimo obrigado, um abraço historicizador.


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