Em 1973, o antropólogo britânico John Blacking (1928-1990) publicou um livro que desafiaria as fundações da musicologia ocidental: How Musical Is Man? (em tradução livre, “Quão Musical é o Homem?”).
Longe de ser uma provocação retórica, o título carrega uma interrogação que reorganiza a forma como entendemos a música: e se a musicalidade não fosse um dom raro, restrito a artistas virtuosos e culturas “desenvolvidas”, mas uma capacidade universal do ser humano?
A obra de Blacking é uma crítica contundente ao elitismo musical e um convite a repensar o papel da música como linguagem fundamental da humanidade. Para ele, a música é uma forma de comunicação, expressão social, ferramenta pedagógica, tecnologia do corpo e da emoção – enfim, uma manifestação essencialmente humana.
Hoje, mergulhamos na revolução silenciosa proposta por Blacking, investigando como sua pesquisa entre o povo Venda, na África do Sul, desestabilizou noções arraigadas sobre arte, cultura e identidade.
Vivendo Entre os Venda
John Blacking não era um pesquisador de poltrona. Formado em antropologia e música, ele se envolveu com o trabalho de campo etnográfico. Entre os anos 1956 e 1958, viveu com os Venda, um grupo étnico do norte da África do Sul, participando ativamente de seus rituais, festas, cerimônias e rotinas cotidianas.
O que ele encontrou foi um universo musical que, embora distante da tradição escrita e harmônica da música europeia, apresentava uma sofisticação estrutural impressionante: polirritmias complexas, canto responsorial, danças sincronizadas e formas musicais coletivas permeavam desde as brincadeiras infantis até os ritos funerários.
Ao contrário da noção ocidental de performance musical centrada em especialistas, na performance, nos contextos Venda, a música é parte inseparável da vida social, ou seja, todos cantam, tocam, dançam. A participação é o valor supremo, não a perfeição técnica.
Um dos trechos mais legais do livro é a descrição de como as crianças Venda aprendem música desde muito pequenas. Ainda antes dos três anos, já participam de brincadeiras e jogos que envolvem ritmo, melodia e movimento corporal. As canções conhecidas como nyimbo dza vhana (canções infantis) combinam palmas, passos e vozes de forma coordenada, em padrões rítmicos que desafiam até mesmo músicos treinados no Ocidente.
Segundo Blacking, esses jogos ensinam musicalidade e, ao mesmo tempo, noções de matemática, de disciplina social, de coordenação motora e de consciência coletiva. Mais do que transmitir conteúdos, a música aqui é uma forma de educar o corpo para o convívio e a sensibilidade.
A Tese: Musicalidade é Biologia + Cultura
Blacking propôs que a musicalidade é uma capacidade universal, ancorada em estruturas biológicas, mas moldada culturalmente. Assim como a linguagem verbal, o potencial musical está presente em todos os seres humanos, mas assume formas distintas conforme a cultura.
Essa abordagem causou um choque à época, uma vez que rompe com as ideias inatistas que associavam o “gênio musical” a dons misteriosos, mas também contesta visões puramente culturais que negam qualquer base biológica para a música.
Segundo etnomusicologista, o corpo é o primeiro instrumento musical. O ritmo do coração, os sons da respiração, os movimentos do andar, os tons da fala — tudo isso compõe uma base perceptiva sobre a qual se constroi a experiência musical. Assim, dançar é também uma forma primária de compreensão musical.
De certa forma, Blacking antecipa as descobertas recentes da neurociência ao afirmar que a música ativa conexões emocionais, libera neurotransmissores como dopamina e fortalece vínculos sociais. Um bom texto para você ler sobre isso é esse aqui.
A música é antes de tudo uma experiência incorporada, não existe separada do corpo, da comunidade e da emoção. O corpo sente, interpreta e gera a música. E é nesse gesto que reside sua força educativa, terapêutica e política.
O Elitismo Musical e Legado
Em seu texto, Blacking não poupou críticas à forma como a tradição europeia canonizou determinados gêneros e compositores como ápices da sofisticação musical. Em sua análise, isso reflete não um critério neutro de qualidade, mas estruturas de poder, colonialismo cultural e exclusão.
Um exemplo: Enquanto uma sonata de Beethoven é celebrada como obra-prima, os polirritmos complexos dos Venda são muitas vezes vistos como “folclore”. Essa hierarquização, argumenta ele, é artificial e revela mais sobre quem define o que é arte do que sobre a música em si.
Mesmo no jazz – gênero que surgiu de raízes africanas e da diáspora – músicos buscam inspiração em ritmos africanos, em sintonia com o que Blacking descrevera. A sofisticação não está na escrita da partitura, mas na riqueza da escuta e na complexidade da interação social por meio do som.
Mais de cinco décadas depois, How Musical Is Man? continua sendo leitura obrigatória. E seus argumentos ecoam de forma ainda mais vibrante em tempos de globalização cultural, inteligência artificial e debates sobre equidade no ensino. Blacking nos legou uma nova escuta.
Ao descolonizar a percepção musical, revelou que a música não é propriedade de gênios nem de instituições, mas parte do que nos torna humanos. A música é memória, resistência e conexão, verdadeiramente organizada, é aquela que pulsa com a vida.