Categorias
Leitura & Alento

Como ter o hábito de ler sem ter o hábito de ler

por Patricia Dias

Na minha última coluna de 2021 para o Lambrequim falei dos balanços e das listas de melhores leituras. Como essa é a primeira coluna do ano, penso que ainda vale falar de planos e promessas literárias. Mas, para começar, caro leitor, por favor não prometa que irá desenvolver o “hábito” da leitura esse ano. Relacionar hábitos e metas com leitura literária não é a melhor opção, a chance de fracassar é grande.

Quer implementar bons hábitos em 2022? Tenho algumas sugestões: experimente dormir mais cedo, desative as notificações do celular, tente desconectar das redes nos finais de semana, beba mais água, e por aí vai. Só não tente incluir a leitura no mesmo balaio de “bons hábitos” — embora seja uma ideia amplamente difundida. 

Consultando o dicionário encontrei a seguinte definição: 1. tendência ou comportamento, geralmente inconsciente, que resulta da repetição frequente de certos atos; rotina; automatismo. Ler literatura nada tem a ver com repetição, automatismo, rotina… Cada livro é um novo desafio. A leitura exige entrega e trabalho intenso.

Essa noção equivocada sobre a prática da leitura é uma herança dos tempos de escola, onde a literatura era encarada como mais uma tarefa didática. Quem não lembra das provas do livro, ou das terríveis fichas de leitura? Na sala de aula aprendemos que ler vale nota, que a leitura deve ensinar algo e quem lê escreve melhor. Foram tantos anos ouvindo esse discurso utilitário que simplesmente o aceitamos como verdadeiro sem questionamento e seguimos repetindo. 

Com o utilitarismo enraizado profundamente, nos tornamos adultos que abandonam a leitura ficcional em prol das leituras técnicas, os tais livros “que agregam”. E com esse mesmo olhar utilitário fazemos as escolhas dos livros para nossos filhos ou alunos. Deixamos de lado os livros infantis “bobinhos”, principalmente aqueles só com imagens, e compramos edições com mais texto e mensagens educativas. Afinal, livro serve para educar, não é mesmo?   

Alguém lembra de alguma vez ter ouvido na escola algo sobre a fruição, o prazer de ler, as experiências leitoras ou a comunidade de leitores? É inegável que quem lê escreve melhor e   desenvolve inúmeras habilidades, mas a conquista de tais habilidades são um efeito colateral da experiência literária e não deveriam ser o objetivo do ato de ler. O que deveria vir em primeiro lugar (sempre) é o desejo, o encantamento, o permitir-se afetar por um livro, a vontade de compartilhar as leituras com outras pessoas, a construção de uma rede — uma comunidade leitora.   

Uma pessoa recentemente viu meus vasos e perguntou se eu havia arranjado um novo hobby e abandonado a leitura. Fiquei me questionando a respeito: se não é hábito, a leitura poderia ser um hobby? Apesar de vivenciar a leitura como imersão, fruição, prazer, mas também exercício, não consigo definir minha relação com os livros como hobby. É algo muito maior que isso, está mais para um modo de vida. Ser leitora é minha forma de estar e me relacionar com o mundo.  Algo que traz mais sentido para os meus dias, que é ao mesmo tempo interesse, trabalho, descoberta, paixão e posicionamento político. Não é algo que possa ser abandonado ou substituído por outro interesse. É algo que sobrevive aos demais interesses e à correria do cotidiano. Em alguns momentos está mais em alta ou em baixa, mas está sempre presente, pulsando. Um amor que aumenta cada vez que encontro pelo caminho os livros certos — certo no sentido do encontro no momento exato, trazendo o aconchego ou o solavanco que eu precisava.  É um universo sem fim — basta que alguém tire o primeiro véu e nos inspire a seguir desvelando as maravilhas da literatura.

Para quem deseja de fato ler mais, tenho algumas sugestões: faça parte de uma comunidade leitora; participe de um Clube de Leitura, troque ideias sobre o livro do mês, pegue indicações com pessoas de gostos literários parecidos ou contrários aos seus. Falo isso com propriedade, sou mediadora de três Clubes e os laços formados a partir do desejo genuíno pela leitura são especiais. 

Deixe o livro ao alcance das mãos para os momentos roubados. Carregue um livro sempre na bolsa, no carro, na mesinha de cabeceira… Visite sebos, bibliotecas, livrarias; conheça novos autores; compare edições; busque promoções; troque livros. 

Se preferir, compre um leitor digital, e tenha uma biblioteca de peso na palma da mão. Converse sobre livros (fale da leitura da vez sem pudores); peça indicações; cite seus favoritos; leia os livros, veja os filmes e discuta sobre as adaptações. 

Leia para passar o tempo. Leia para pausar o tempo. Leia para sentir o tempo. Leia.

Assine o Lambrequim

Recebeu essa nota por e-mail ou pelo whats e gostou? Então junte-se aos quase 2 mil assinantes da newsletter Lambrequim e receba, toda quarta-feira, uma seleção sobre música, livros, criatividade e como ser artista independente em um mundo de mudanças constantes.