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Escrever não muda o mundo, mas pode mudar quem ler

A escrita é, antes de qualquer definição, uma tecnologia. Como já mencionei em uma das primeiras Cismas, o ato de registrar pensamentos em símbolos que resultam em significados, é a prova da caminhada humana até aqui. Assim como toda grande tecnologia, é causa e consequência da nossa história e está intrincada à nossa existência nesse mundo — queiramos nós ou não.

Em outra Cisma, falei sobre o ambiente nocivo das redes sociais e mencionei a resistência que cada um de nós enfrenta diante de uma nova tecnologia. Sem querer, estava evocando ideias de um famoso filósofo da ciência da informação e da comunicação: Pierre Lévy.

Seu livro As tecnologias da inteligência, publicado em 1990, traz reflexões visionárias sobre o futuro da relação da humanidade com os computadores e as novas formas de comunicação.

Uma das primeiras ideias que Lévy expõe em seu livro — e ao redor da qual pensei essa Cisma — é que as técnicas não passam de técnicas, assim como as tecnologias. No entanto, o que é feito delas, isso sim é de responsabilidade do grupo de pessoas em determinados tempo e espaço.

Se na época em que Lévy escreveu As tecnologias da inteligência havia inúmeras barreiras em relação ao armazenamento de informações para que elas pudessem ser acessadas tal qual o funcionamento da nossa cadeia de pensamentos (ele cita o compact disc como uma alternativa viável, o que chega a me dar certa nostalgia), hoje qualquer um de nós tem acesso a uma miríade de técnicas e informações onde e quando quisermos.

Temos a possibilidade de publicar nossas ideias em questão de minutos, em formatos diferentes para públicos diferentes e com objetivos diferentes. Trocamos mensagens de amor, raiva, alegria e descontentamento no exato momento em que temos esses sentimentos. Podemos ter os mais diversos níveis de relacionamento sem sequer precisarmos nos levantar da cama.

E tudo graças ao computador e, posteriormente, à internet.

Se a internet mudou a nossa relação com a informação e o conhecimento, as redes sociais mudaram a nossa relação com a internet. Mas, seguindo a lógica de Lévy, nem a internet e nem as redes sociais são responsáveis pela nossa relação caótica com o mundo hoje: se a humanidade é o agente que executa a técnica, a culpa é toda nossa mesmo, e não das técnicas que nos trouxeram até aqui.

Quem acompanha o Lambrequim há algum tempo, deve lembrar que mais de uma vez questionei o papel da escrita, ou até mesmo da produção de textos longos, em um mundo já inundado por informações e livros. Em outra ocasião, questionei ainda de que nos adianta publicar e produzir com tanta pressa

Como muitos, às vezes sou vítima de uma nostalgia de um tempo que não vivi, em que as relações eram menos imediatistas e complexas do que agora — no entanto, a ironia é que só posso questionar o tempo em que vivo porque sou uma pessoa desse tempo.

(Nenhuma novidade. O filme Meia-noite em Paris trata exatamente sobre isso.)

Pois bem. Como uma escritora do meu tempo, acredito que seja crucial refletir e questionar sobre as relações entre escrita, leitura e publicação na internet. Em outras palavras, não sair apenas escrevendo e publicando qualquer coisa, achando que o resultado (bom ou ruim) é a prova máxima do sucesso ou do fracasso.

Se nós e somente nós somos os culpados pelos usos que fazemos das ferramentas, então talvez estejamos escolhendo as ferramentas erradas para publicar o que escrevemos. E quando falo “nós” é um nós coletivo. Todos nós, escritoras e escritores, estamos replicando ideias e formatos que não nos beneficiam — pelo contrário, só nos minimizam no mar de informações.

No entanto, se abster das redes sociais e esconder os textos em nuvens particulares é ainda mais nocivo do que publicá-los a esmo. Não participar do debate público de ideias é muito pior do que participar de maneira desregrada.

Nós, como escritoras e escritores, só precisamos fazer duas coisas:

  • Estudar muito (muito mesmo!), para sermos os melhores que pudermos ser;
  • E falar sobre a escrita e a leitura com todo mundo — pessoalmente, pela internet, com amigos, familiares e desconhecidos.

Se eu falo sobre escrita dia sim, dia também, é porque acredito de verdade no potencial do ato de escrever. Nós, que nos especializamos nessa técnica arcaica chamada escrita, somos a ponta da lança da comunicação na internet.

Outro dia, ouvindo uma entrevista que a escritora Luci Collin concedeu ao jornalista José Castello em 2008 (e que você pode ouvir aqui), me deparei com uma reflexão linda sobre o papel da literatura na sociedade.

Luci afirma, logo no início da conversa, que é preciso sermos realistas: a literatura não tem o potencial de mudar o mundo nem de mover montanhas. O poder da literatura está em promover mudanças individuais muito significativas.

Então, se a literatura é capaz de promover mudanças individuais significativas e nós temos inúmeras ferramentas ao nosso dispor para publicar, nós precisamos nos envolver no debate e usar essas ferramentas a nosso favor.

As técnicas e as tecnologias são o uso que nós fazemos delas. Mesmo que nossas palavras não alcancem um número notável de leitores, quanto mais gente partilhar textos, artes e ideias, melhor posicionados e representados estaremos dentro da grande fogueira cibernética.

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